Svetlana Alexievich: a voz de uma geração

  • Natasha Ribeiro
    Natasha Ribeiro
    06/10/2020 . min de leitura

A ganhadora do Nobel busca representar a vontade dos manifestantes em Belarus, apesar da intimidação do regime de Alexander Lukashenko.

*por Natasha Ribeiro

De Chernobyl à experiência das crianças durante a Segunda Guerra Mundial, há quase 40 anos a escritora bielorrussa Svetlana Alexievich vem produzindo sua própria versão notável da história soviética. Não é nenhuma surpresa que hoje, aos 72 anos, ela faça parte de um novo capítulo dessa história ao servir como porta-voz dos manifestantes na crise de Belarus.

Svetlana vem sendo uma importante figura de oposição ao ditador Alexander Lukashenko, no poder desde 1994 e que se elegeu novamente de maneira controversa no último dia 9 de agosto. Segundo informações oficiais da comissão eleitoral, o presidente obteve 80,2% dos votos, mas as pesquisas estavam prevendo um resultado bem diferente. Justamente por isso, apesar de Lukashenko ter reivindicado a vitória, a maioria dos cidadãos bielorrussos acredita que a verdadeira vencedora seja Svetlana Tsikhanouskaya, uma dona de casa de 37 anos que se tornou candidata da oposição depois que seu marido, que tentava concorrer à presidência, foi preso, junto com outro candidato em potencial.

Tsikhanouskaya foi forçada a ir para o exílio no dia seguinte ao início dos protestos, mas, ao ver a mobilização de milhares de pessoas nas ruas, decidiu criar o Conselho de Coordenação (CC) para a transferência pacífica do poder em Belarus, formado por bielorrussos proeminentes – ativistas, profissionais dos mais diversos setores, inclusive escritores e artistas – que esperam representar a vontade dos manifestantes. Porém, a maioria dos integrantes foi presa ou forçada ao exílio.

O último membro da formação original do Conselho é justamente Svetlana Alexievich. A escritora tem resistido à todas as tentativas de intimidação do regime. De acordo com a agência de notícias Reuters, Svetlana relatou que desde o início das ondas de protestos, além de ter recebido uma série de “ligações anônimas”, homens “estranhos” que, presumiu ela, trabalhavam para os serviços de segurança do presidente Lukashenko, tocaram sua campainha durante a noite. No dia seguinte ao episódio, cerca de 15 pessoas, entre embaixadores, outros diplomatas e intelectuais, se reuniram em sua casa em Minsk, capital de Belarus. O objetivo era acompanhar a escritora para testemunhar o que quer que pudesse acontecer à ela – “uma espécie de resistência pela presença”, afirmou Svetlana em entrevista. Ainda de acordo com a Reuters, Linas Linkevicius, ministro das Relações Exteriores da Lituânia, também afirmou que diplomatas foram ao apartamento de Alexievich para monitorar a situação, “e de uma certa maneira fazer a sua defesa, porque é mais difícil recorrer a métodos brutais com um corpo diplomático ao redor”.

Mesmo diante de protestos em massa e greves em grande escala de trabalhadores industriais, o ditador Lukashenko se recusa a negociar. Nas ruas, a cada nova manifestação, forças especiais prendem, de maneira aleatória, manifestantes e civis. A maioria vem sendo detida por vários dias e depois liberada; mas outros simplesmente desapareceram e pelo menos dois ativistas da oposição foram encontrados mortos. Só nos protestos que aconteceram no último domingo (4), segundo fontes ligadas ao The Viasna Human Rights Centre, cerca de 225 pessoas foram presas – entre elas, 17 jornalistas. Sem contingente para suprimir diretamente os protestos, o plano de Lukashenko parece ser aterrorizar e exaurir o povo até que todos desistam e voltem para casa.

Mas essa intimidação não vem funcionando – principalmente com Svetlana Alexievich. No dia 26 de agosto, a escritora foi convocada a comparecer perante o Comitê de Investigação – a autoridade central do Ministério Público em Belarus. As ações judiciais do Ministério são contra pessoas que fazem parte do Conselho de Coordenação, acusado de “convocar ações contra a segurança nacional” – que são passíveis de penas de três a cinco anos de prisão. Na audiência, Svetlana se recusou a responder às perguntas dos investigadores. Segundo citações de agências de notícias russas, a bielorrussa afirmou que recorreu ao “direito de não depor contra mim mesma” e que não se sentia culpada de nada. Ainda destacou que “o Conselho de Coordenação não tem outros objetivos a não ser consolidar a sociedade e sua formação é absolutamente legítima”.

Quando criou o Conselho de Coordenação, a então candidata à presidência, Svetlana Tsikhanouskaya, selecionou os participantes a partir de um grupo de voluntários que havia se inscrito. Mesmo após a formação original, o Conselho continuou aceitando inscrições. De acordo com Svetlana Alexievich, em entrevista concedida à revista norte-americana The New Yorker, quase sete mil pessoas se inscreveram e, no início de setembro, foram escolhidos 120 integrantes que agora vão compartilhar o poder de decisão. Ao contrário dos nomes da formação original do Conselho, as identidades dos novos participantes do que agora é chamado de Conselho Expandido serão mantidas em segredo, em uma tentativa de protegê-los da prisão.

Mas segundo citações de agências de notícias russas, o presidente Alexander Lukashenko disse que não há o que debater com a oposição. Porém, desde o início dos protestos em 9 de agosto, ele chegou a citar, mais de uma vez, a possibilidade de uma nova eleição presidencial e também de uma suposta reforma constitucional. Mas afirmou ser cedo demais para dizer quando isso poderia acontecer.

Segundo especialistas, a única eleição legítima de Lukashenko teria sido a primeira, em 1994. Na época, apenas um mês após assumir o cargo, ele tomou o controle das televisões do país e, em 1996, dissolveu o Parlamento e o Tribunal Constitucional por meio de um referendo – com isso, ele concedeu a si mesmo o direito de legislar. Desde então, a oposição passou a ser reprimida. Observadores internacionais viram problemas nas quatro eleições seguintes e, neste ano, não foram autorizados a ir ao país. Além disso, observadores independentes internos também dizem ter sido impedidos de fiscalizar a votação deste ano.

Posse secreta e a resposta da União Europeia

No final de agosto, Alexander Lukashenko prestou juramento para o seu sexto mandato presidencial em um evento excepcional, mantido em sigilo – o anúncio da sua posse só foi anunciado pela agência oficial Belta e pela presidência depois de concluída. Ainda de acordo com a Ucrânia, os embaixadores não foram convidados, como de costume. Segundo declaração oficial da presidência bielorrussa, 700 pessoas compareceram.

Em seu discurso de posse, Lukashenko afirmou que Belarus “resistiu a uma revolução de cor” – apelido dado na ex-URSS aos movimentos populares que expulsaram os regimes autoritários do poder desde o início de 2000 na Ucrânia, Geórgia e Quirguistão. E continuou “Mas estamos entre os únicos, isso se não formos os únicos, onde a ‘revolução de cor’ não funcionou. É a decisão dos bielorrussos, que não queriam a queda de seu país”. Para o ditador, essas revoltas foram apoiadas pelo “Ocidente” – que pretendiam derrubá-lo para usar Belarus como um trampolim para uma suposta guerra contra a Rússia. Vale lembrar que o país é conhecido como “a última ditadura da Europa”.

O ministro das Relações Exteriores da Lituânia, Linas Linkevicius, ironizou a cerimônia secreta com uma publicação em seu Twitter: “Que farsa! Eleições fraudulentas, posse fraudulenta”. Já o porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, declarou em coletiva de imprensa que “não foram cumpridas as exigências mínimas para eleições democráticas”

Em 19 de setembro, uma semana antes da cerimônia de posse, os líderes da União Europeia (UE) já haviam declarado não reconhecer o resultado das eleições presidenciais. A UE ameaça adotar sanções contra o governo de Belarus, mas ainda não chegou a um acordo sobre o tema.

Liderança Feminina e Nobel da Paz

Não por acaso, a declaração mais energética após o anúncio da posse de Alexander Lukashenko no dia 23 de setembro, foi a da então candidata Svetlana Tikhanovskaya, principal rival do presidente: “essa posse alegada é claramente uma farsa”, denunciou em um comunicado no aplicativo Telegram.

Em entrevista ao jornal alemão Deutsche Welle (DW), Felix Krawatzek, do Instituto ZOIS de Estudos sobre a Europa Oriental, afirmou que, para ele, a força das manifestações nas ruas após a eleição está intimamente ligada às três políticas da oposição: Svetlana Tikhanovskaya, Maria Kolesnikova e Veronika Tsepkalo. “Com um misto de autenticidade, modéstia e credibilidade, elas conseguiram mobilizar as pessoas. Dessa forma, elas mesmas encorajam outras mulheres do país a se tornarem politicamente ativas”, frisa Krawatzek.

Nas eleições de 2010 e 2015, quando também já havia suspeitas de fraude, chegaram a acontecer protestos nas grandes cidades – porém, com menor participação popular e também menor duração. Os atuais protestos já duram quase dois meses. Ainda para Felix Krawatzek, “o diferente desta vez é a liderança forte e simbolicamente carregada da oposição, além de uma esperança real de acontecer uma mudança fundamental”

Ativista em protesto na Avenida da Independência em Minsk, Belarus. Foto: Sergei Bobylev/TASS/Sipa USA

O cientista político ainda lembra que, inicialmente, eram os jovens que saíam às ruas e que a pandemia do novo coronavírus também acabou atuando como um catalisador – já que muitos, especialmente os mais novos, perderam seus empregos. O fato de Belarus não ter tido algum tipo de política de restrição para tentar conter o vírus, fez com que “houvesse grandes dúvidas se o regime realmente se importava com seu povo”, diz Krawatzek.

Agora, apesar de todos os grupos etários e de diferentes classes sociais poderem ser vistos nas manifestações, as mulheres vem ganhando destaque: descalças, usando roupas brancas e com flores nas mãos, sempre que possível, elas abraçam policiais uniformizados e colocam flores em seus equipamentos de proteção. “Isso mudou a estratégia de protesto: a violência do Estado é confrontada com um contrapeso pacífico”, comenta ainda o cientista político em entrevista ao jornal alemão DW.

Só para se ter uma ideia, segundo a agência humanitária bielorrussa The Viasna Human Rights Centre, entre os mais de 80 manifestantes presos em uma manifestação realizada no sábado, 26 de setembro, pelo menos 80% eram mulheres. Não por acaso a principal opositora política de Lukashenko, Svetlana Tsikhanouskaya, costuma fazer discursos direcionados às mulheres em sua conta no Telegram. “Vocês são fortes e invencíveis” e não poupa críticas à polícia “e os próprios homens que, escondendo o rosto, usam a força contra as mulheres? É possível viver em paz com esses homens?”.

A chanceler alemã Angela Merkel expressou em discurso, na última quarta-feira (30), a admiração pelas mulheres que protestam contra o regime bielorusso. “A coragem das mulheres nas ruas de lá, lutando por uma vida de liberdade e contra a corrupção, só posso dizer: ‘Admiro isso’”, afirmou. A chanceler aproveitou a oportunidade para reiterar que seu governo não reconhece a alegada vitória eleitoral de Alexander Lukashenko, pedindo que o presidente bielorrusso tente “entrar em diálogo com seu povo, sem interferência do leste ou do oeste”. 

Enquanto os líderes da União Europeia seguem reunidos em uma cúpula em Bruxelas para tentar estipular possíveis sanções contra o governo autoritário de Belarus, Angela Merkel anunciou que irá se encontrar com a opositora Svetlana Tsikhanouskaya hoje (6) em Berlim.

Tsikhanouskaya é justamente uma das três articuladoras políticas que fazem parte da gerência do Conselho de Coordenação – apontadas como as principais lideranças femininas no país, elas tiveram destinos diferentes desde o início das ondas de protestos. Svetlana se exilou na Lituânia logo após a eleição, com medo das ameaças à sua família. A opositora Maria Kolesnikova teria sido presa após se recusar a deixar o país – ela já havia declarado que preferia enfrentar prisões e repressões a sair de Belarus em busca de exílio. Já Veronika Tsepkalo, cujo marido, o ex-embaixador em Washington, Valeri Tsepkalo, teve seu registro negado como candidato e fugiu para a Rússia para escapar da prisão, também deixou o país para se reunir a ele

Em protestos em julho, três mulheres levantando retratos das lideranças Sviatlana Tsikhanouskaya, Veronika Tsepkalo, e Maria Kolesnikova. Foto: Uladz Hrydzin – Radio Free Europe / Liberty 

Restou à escritora e Nobel da Paz bielorrussa Svetlana Alexievich a função de “não ir para lugar algum”, como afirmou no início do mês para o repórter Masha Gessen em entrevista à revista The New Yorker. Logo que Alexander Lukashenka assumiu o poder, em 1994, a escritora deixou Belarus. Ela passou uma década vivendo em diferentes países europeus, escrevendo seus livros entre bolsas de estudos e residências. Em 2005, Alexievich confidenciou também a Gessen que havia chegado à conclusão de que estava errada ao pensar que “poderia deixar Lukashenka de fora”. No ano seguinte, a bielorrussa voltou para Minsk –

“não quero que ele diga que eu fugi. Eu não quero que as pessoas percam a última esperança que resta. Então, estarei aqui até o fim”.

Svetlana vem cumprindo sua promessa. Não é a primeira vez que a autora não é uma figura bem-vinda em seu próprio país – quando, em 2015, recebeu o prêmio Nobel de Literatura, foi recebida com indignação pela mídia russa controlada pelo estado, que alegou que ela havia ganhado apenas por causa de suas opiniões contra o presidente russo, Vladimir Putin.

Além disso, sofreu muitas críticas por seus livros serem baseados exclusivamente em entrevistas, reunidas como uma série de monólogos, não mediados por comentários da própria autora. A história oral não foi reconhecida como pesquisa profissional pela Academia Russa de Ciências, e os livros de Alexievich atraíram repetidos ataques em seu país – onde o estado sempre manteve o controle rígido de sua história por meio da mídia e dos livros escolares, garantindo uma manipulada memória coletiva vitoriosa do passado.

Svetlana foi perseguida justamente pelo testemunhos subversivos e angustiados, obtidos de pessoas comuns, sobre temas que abrangem as eras soviética e pós-soviética, com foco em seus pontos de trauma e por meio de memórias individuais. Juntos, seus seis livros formam uma série que ela chama de “A Crônica da Grande Utopia ou A História do Homem Vermelho”. 

Sua obra de estreia em 1985, A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, retrata a saga das soldadas soviéticas que lutaram durante a Segunda Guerra Mundial, contada pelas próprias personagens. Seu segundo livro, Menino de Zinco (1991), traz depoimentos sobre a brutalidade da guerra soviético-afegã. Já Enchanted with Death (1994; ainda sem tradução no Brasil – “Encantados pela morte”, em tradução livre), reflete sobre o trauma de uma nação com a queda da União Soviética. A obra é considerada uma das mais “pesadas”, por relatar suicídios e tentativas de suicídios. Em Vozes de Tchernóbil: crônica do futuro (1997), o pano de fundo é o pior acidente nuclear da história. Enquanto em As últimas testemunhas: crianças na Segunda Guerra Mundial (2004), Svetlana reúne depoimentos de sobreviventes que, quando crianças, testemunharam os horrores do conflito. Em 2013, lançou seu último livro: O fim do Homem Soviético, onde examina justamente o fim da União Soviética. 

A obra de Svetlana Alexievich deu voz a toda uma sociedade soviética que se esforçou para encontrar sentido ao enorme sofrimento que experimentou durante o século XX. Ao que parece, a bielorrussa continua a escrever mais um capítulo da história de seu país. Agora, no século XXI.


  • Natasha Ribeiro
    Natasha Ribeiro

    Natasha Ribeiro é jornalista e já trabalhou e colaborou em veículos como Middle East Eye, BBC Brasil, SporTV, GloboNews e Veja. Após viver quase dois anos em Beirute, hoje escreve e fala sobre Oriente Médio, política internacional, conflitos, migrações e crises humanitárias.


Natasha Ribeiro
Natasha Ribeiro

Natasha Ribeiro é jornalista e já trabalhou e colaborou em veículos como Middle East Eye, BBC Brasil, SporTV, GloboNews e Veja. Após viver quase dois anos em Beirute, hoje escreve e fala sobre Oriente Médio, política internacional, conflitos, migrações e crises humanitárias.