Aos 7, eu era uma macaca

  • Claudia Alves
    Claudia Alves
    30/11/2020 . min de leitura

Cresci com a máxima de que era a negra única.

Sabe aquela história da pessoa de pele escura que vive rodeada de pessoas brancas? Então, essa aí.

Acontece que no início dos anos 90 a minha família era um núcleo duro de pretos únicos. Meu pai era o único engenheiro negro no COPPE/UFRJ. Minha mãe, a única relações públicas negra em uma agência de design de um bairro de classe alta no Rio de Janeiro. Eu, a única negra da escola particular onde estudava na zona norte da cidade. E meu irmão, o único garoto negro de uma das escolas mais caras da ex-capital do país.

Corta para 2019. Eu já trabalhava, formada em jornalismo, e atuava como roteirista e diretora. Um dia, no trabalho, uma colega de profissão dividiu comigo que sua filha, Carolina, de 14 anos sofria agressões psicológicas de um menino branco. Em 2019, ela era a negra única daquele espaço em São Paulo: uma escola particular na cidade mais rica do Brasil. 

O que me separava da Carol? Apenas 17 anos de diferença e a minha capacidade atual de compreensão da realidade. As palavras que minha amiga de trabalho me dizia pareciam socos no estômago. Lembrei dos meus 7 anos, quando fui chamada de macaca por um “amiguinho” do colégio. Como Carolina, não contei para os meus pais. Assim como ela, achei que seria uma preocupação a mais para os meus responsáveis. Afinal de contas, eu sabia que eles também eram “negros únicos”. 

A macaca de 7 anos, se tornou mais popular no ensino médio. E com o cabelo mais cheio de química, também. Quando começou a sair sozinha, a macaca dos 7, então com 17, recebia elogios por sua beleza exótica. Tenho certeza que não entendia o real significado, mas achava que era elogio. Até porque, o belo adjetivo vinha seguido da famigerada frase: “você tem os traços brancos.” O que lhe gerava uma felicidade tremenda. Longe de mim ter os traços de uma macaca. E seguia a jornada da negra única.

Já no meu processo de buscar um estágio – de tanto meu pai me cobrar – outro tipo de situação aparecia. Em uma dessas entrevistas que a gente vai aprendendo na marra como lidar, olharam para o meu currículo e focaram no endereço. Era um bairro nobre na zona oeste. A pergunta veio atravessada: “seu pai é jogador de futebol?” 

Por mais que eu quisesse ter os traços brancos, e os cabelos menos cacheados, a macaca dos 7 anos já estava marcada em mim. Não era possível morar no Jardim Oceânico sem que seus pais tivessem seguido o roteiro que a sociedade reservava a tantos outros negros como eles: sambista ou jogador de futebol com a companheira negra bonita (e de traços brancos) que se apaixonou por uma celebridade. 

A negra única foi florescendo. Desenvolveu um escudo de arrogância que a protegia para o ataque na forma de capital intelectual. E começou a questionar o motivo de só ter amigas brancas a sua volta. Quem sabe por ser de uma família de negros únicos que ascendeu? 

Escutava que eram a maioria da população e não entendia porque sua realidade era outra. Lembra da primeira amiga negra depois de adulta. Uma mulher já racializada. Agora, com 28, a macaca de 7 anos já não tinha mais cabelos quimicamente tratados, já não achava legal escutar que era exótica e já tinha lido bons livros sobre raça e o Brasil.

Começou a se inconformar por ser a negra única rodeada de brancos. Sabia que não podia mudar o seu passado, mas que podia fazer algo agora. Nesse processo, perdeu alguns amigos. E entendeu que na verdade estava escolhendo as pessoas que queria por perto. Enegreceu. Entendeu que se 54% da população é negra, nada mais justo que se aquilombar e se reconhecer.

A menina que foi chamada de macaca, agora com 30 e poucos anos, tinha plena consciência da dívida histórica que o Brasil tinha com seu povo. Sobretudo com as mulheres negras. Hoje, essa mulher negra que já escutou que tinha traços finos, agora dá a mão a outras mulheres e luta para acabar com a história mal contada do negro único no Brasil. Primeiro, porque como diz James Baldwin: “eu não sou seu negro.” Não me venha com denominação incerta que esconde o seu racismo. Segundo, porque como Maya Angelou já espalhava pelo mundo: “eu ainda me levanto.”

Quero me sentir em casa da mesma forma que me sinto lendo Conceição. Quero chorar de emoção quando vou a um encontro de mulheres negras. Quero que todas nós possamos sonhar com um futuro diferente do que decidiram por nós. Esse texto é para todas as meninas negras que são as negras únicas em suas escolas, e para todas aquelas que já podem se aquilombar.


  • Claudia Alves
    Claudia Alves

    Claudia Alves é formada em Jornalismo e desde 2015 atua na indústria audiovisual como diretora, produtora e roteirista em projetos com impacto social. Ela se especializou em Storytelling na pós graduação em Gestão em Inovação Social no Quênia pelo Instituto Amani. Dirigiu o documentário Cabelo Bom que ganhou alguns prêmios como da categoria Especial do Júri no Festival de Gramado de 2017. Produziu filmes premiados como NEGRUM3 e Menino Pássaro. Além de ser roteirista e diretora de conteúdo da série #OFuturoÉFeminino, vencedor da medalha de bronze na categoria documentário no Festival de NYC TV & Film. Em 2019, foi co-roteirista de uma nova série de crime contando a história da criação de uma facção criminosa na periferia de São Paulo para a NETFLIX com produção da O2 Filmes. No primeiro semestre de 2020 foi roteirista do novo programa de Babu Santana para o Gshow, #EmCasaComBabu. Atualmente, estuda audiovisual para desenvolvimento e mudança social na Universidade de Sussex na Inglaterra através da bolsa Chevening. No primeiro trimestre de 2021, lança uma série com foco em mulheres negras para o Canal Brasil onde assina direção e roteiro pela Fluxa Filmes. Em todos os seus trabalhos nas diferentes áreas de atuação a storyteller busca trazer a discussão de raça e gênero, com o objetivo de contribuir para uma indústria mais diversa.


Claudia Alves
Claudia Alves

Claudia Alves é formada em Jornalismo e desde 2015 atua na indústria audiovisual como diretora, produtora e roteirista em projetos com impacto social. Ela se especializou em Storytelling na pós graduação em Gestão em Inovação Social no Quênia pelo Instituto Amani. Dirigiu o documentário Cabelo Bom que ganhou alguns prêmios como da categoria Especial do Júri no Festival de Gramado de 2017. Produziu filmes premiados como NEGRUM3 e Menino Pássaro. Além de ser roteirista e diretora de conteúdo da série #OFuturoÉFeminino, vencedor da medalha de bronze na categoria documentário no Festival de NYC TV & Film. Em 2019, foi co-roteirista de uma nova série de crime contando a história da criação de uma facção criminosa na periferia de São Paulo para a NETFLIX com produção da O2 Filmes. No primeiro semestre de 2020 foi roteirista do novo programa de Babu Santana para o Gshow, #EmCasaComBabu. Atualmente, estuda audiovisual para desenvolvimento e mudança social na Universidade de Sussex na Inglaterra através da bolsa Chevening. No primeiro trimestre de 2021, lança uma série com foco em mulheres negras para o Canal Brasil onde assina direção e roteiro pela Fluxa Filmes. Em todos os seus trabalhos nas diferentes áreas de atuação a storyteller busca trazer a discussão de raça e gênero, com o objetivo de contribuir para uma indústria mais diversa.

CACD

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  • André Bernardo
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