Depoimento de aprovado no concurso da diplomacia

  • Clipping
    03/01/2017 . 14 min de leitura

“Ele tinha 4 empregos, 2 filhos e 1 sonho: passar no concurso para a carreira diplomática.” Parece chamada de filme, mas não é! Essa é a história do Douglas. Nascido no interior da Bahia e geograficamente isolado dos grandes centros de preparação para o CACD, ele começou a preparação de maneira autodidata e, em meio a erros e acertos, logrou não só aprovação, mas também algumas marcas notáveis, como a segunda maior nota na prova de redação do concurso de admissão à carreira de diplomata de 2016.

Para desvendar melhor essa história incrível de aprovação. Dividimos o post em 3 partes:

  1. Raio X do desempenho;
  2. Vídeo com depoimento;
  3. Entrevista com 10 perguntas. 

Confira abaixo e compartilhe com outros interessados na diplomacia.

1. Raio X do aprovado

Vamos às informações sobre o desempenho do Douglas nos CACD’s:

Prova de Redação

CACD 2015:

  • Redação: desempenho de 70%

CACD 2016:

  • Redação: desempenho de 87%

🏆 Douglas ficou em 2° lugar geral na prova de Redação em 2016.

Línguas Estrangeiras

CACD 2015:

  • Francês e Espanhol: desempenho de 29%
  • Inglês: desempenho de 26%

CACD 2016:

  • Francês e Espanhol: desempenho de 66%
  • Inglês: desempenho de 71%

😲 143% de melhora em línguas estrangeiras em 1 ano

Provas Discursivas

CACD 2015:

  • Economia: desempenho de 78%
  • História do Brasil: desempenho de 69%
  • Direito Internacional: desempenho de 88%
  • PI e GEO: desempenho de 66%

CACD 2016:

  • Economia: desempenho de 71%
  • História do Brasil: desempenho de 90%
  • Direito Internacional: desempenho de 88%
  • PI e GEO: desempenho de 71%

Prova Objetiva (TPS)

Douglas tirou uma nota de 44,25 pontos na prova objetiva, o que corresponde a um desempenho de 60%.

2. Depoimento sobre o Clipping

3. Entrevista

Clipping: Um dos mitos do concurso é que o aprovado é aquela pessoa que fica 100%  focada nos estudos pois conta apoio financeiro incondicional e infinito de familiares. Corrija-nos se estivermos errados, mas sua história é meio que o oposto disso, certo? Poderia compartilhar com o Clipping um pouco dos perrengues que você passou para conciliar as seus 2 empregos, a chegada da sua segunda filha e outras limitações com os estudos para o CACD?

Douglas Nascimento: É bem verdade que a pontuação final do CACD não é ponderada pelos problemas cotidianos que todos temos. Mas nem por isso eles deixam de existir. Conhecendo os colegas aprovados, parece que poucos conseguiram estudar e fazer as provas se mantendo o tempo inteiro nas Condições Normais de Temperatura e Pressão, como diriam os professores de Física (se é que alguém que não seja físico ainda se lembre disso depois de tanto estudar PEB).  Muitos tiveram problemas de saúde, perderam familiares próximos, acabou o dinheiro…

No meu caso, eu exercia a profissão de médico, tinha família constituída, com uma filhinha de 1 ano quando comecei a estudar. Fiz um esforço tremendo para manter a vida o mais normal possível, sem que ninguém, além de minha esposa, soubesse que eu me preparava para o CACD e para não deixar minha família passar privações por culpa de minha maluquice (há alguém 100% normal que estude para este concurso?).

Então, no início de 2012, quando decidi que queria a carreira diplomática, passei a trabalhar como um louco em quatro empregos para fazer uma reserva financeira que me permitisse reduzir a carga de trabalho mais pra frente. Eu fazia plantões noturnos em finais de semana e feriados e dava aulas na faculdade… Entrei no Mestrado em Administração para fazer uma transição das Ciências Naturais para as Ciências Sociais e Humanas.

Comecei a estudar em agosto de 2013 depois de ter feito uma reserva financeira. Eu, trabalhando menos, mas ainda em três empregos, pois eu sabia que o financiamento do apartamento e do carro, a mensalidade da escola e todos aqueles tão aguardados boletos mensais que brotam por debaixo da porta continuariam a chegar…

Li vários relatos de aprovados que tinham conciliado trabalho com estudos, mas no fundo eu sabia que não era possível passar neste concurso trabalhando naquela intensidade.

Prestei então a prova em 2015 e, à medida que fui avançando nas fases, ganhei coragem pra tomar a decisão que hoje me parece a mais acertada de todas: larguei meu principal emprego, um vínculo de direção de um hospital que ocupava meus dias de semana. Já que era pra fazer loucura, pulei logo da ponte com o paraquedas na mão. Enfim, saí de cima do muro e Permaneci em dois empregos bem tranquilos, que pouco me atrapalhavam. Isso me permitiu ampliar as horas de estudo pra cerca de 8 horas diárias antes do edital e intensificar ainda mais entre as fases do concurso de 2016.

Clipping: Pergunta jabá: como o Clipping te ajudou nos estudos?

Douglas Nascimento: A seção de discursos oficiais do Clipping foi muito importante para me ajudar a vestir “a roupa adequada” para cada uma das provas de terceira fase.

Vou tentar explicar melhor.

Claro que conteúdo é por demais relevante nas provas discursivas. Mas utilizar com desenvoltura os conceitos basilares de cada disciplina e os argumentos da diplomacia brasileira para cada tema específico ajuda na apresentação formal das respostas.

Cada disciplina tem uma linguagem própria. E penso que é preciso vestir a roupa adequada em cada turno da prova de terceira fase. Minha impressão é de que é inapropriado abrir a caixa de ferramentas de conceitos de macroeconomia do Mankiw em uma questão, em exemplo grosseiro, de livre comércio em Política Internacional, assim como também pega mal responder essa mesma questão em Economia somente falando de cooperação entre democracias liberais ou dicotomia Norte-Sul.

Este senso de adequação em situações mais sutis que essa do meu péssimo exemplo (nada melhor me ocorre nesse momento de ‘ressaca’ pós-CACD) eu somente consegui lendo muito os discursos oficiais, no que o Clipping me ajudou por selecioná-los por categorias e por poupar meu tempo vasculhando pela internet.

Clipping: Em entrevista ao Bahia Notícias, você diz ter se planejado para “passar em cinco anos, mas, felizmente, em três anos deu para passar, mesmo estudando por conta própria”. O que exatamente foi esse seu planejamento de longo prazo e o que você quis dizer exatamente com “estudando por conta própria”?

Douglas Nascimento: Creio que o “por conta própria”, nessa reportagem, não aparece com o detalhamento necessário. Não creio ser possível, no atual nível de competitividade do concurso, conseguir a aprovação em todas as fases sem auxílio especializado de professores. O impacto que a reprovação no concurso de 2015 causou em meu planejamento de estudos deixou bem claro isso. Vou tentar resumir minha preparação até esse turning point que foi a prova de 2015, quem sabe contribuindo para apontar limitações de voos solo.

Antes da primeira fase de 2015, como eu ainda trabalhava durante todo o dia, eu não conseguia assistir às aulas telepresenciais do curso preparatório que era ofertado em Salvador, cidade onde me preparei. Os cursos online ainda não estavam tão difundidos quanto hoje, ou, não sei, talvez eu simplesmente não os conhecesse. Talvez também um pouco de petulância minha de tentar manter a todo custo um histórico hábito de autodidatismo. O fato é que, nesses dois primeiros anos, optei por estudar por conta própria, com base em indicações de leituras de um programa de curso regular de 2012 (algo defasado) e por figurinhas carimbadas como Amado Cervo, Burns, Furtado, Celso Cunha, Rezek, etc. Era estudar assim ou não estudar!

copy-of-o-itamaraty-me-propiciou-a-possibilidade-2

Quando passei para a segunda fase em 2015, não conhecia nada da prova de Português. Li preliminarmente uns guias de estudo e logo senti que ia me faltar fôlego. Por sorte, naquele ano tivemos 30 dias até a prova e deu tempo pra fazer um curso online.

Mal no conteúdo, bem na correção gramatical, passei até razoavelmente para a terceira fase, e cheio de confiança (veja só!). Acabei me encantando também com a flexibilidade e a qualidade de cursos online, de modo que me matriculei também num curso de terceira fase. Aí veio o soco no estômago!

Meus desempenhos em PI/Geografia, Economia e DIP foram satisfatórios, é verdade, mas não fui competitivo em História e fui mal, muito mal, em Inglês, Francês e Espanhol.

Lição aprendida: precisava de ajuda especializada de professores. Para a prova de 2016, recorri a aulas de línguas em plataformas online e personalizadas via skype, além de pedir, na maior cara de pau mesmo, ajuda a professores por WhatsApp e por e-mail, como professor João Daniel, do Clio, que me ajudou em troca de nada mais que a gratidão de um cara que ele nunca tinha visto na vida.

Sem querer fazer “merchan”, até porque eles não precisam, incomodei demais um monte de gente, como Isabel Botelho, Pablo Lluveras, Cláudia Simionato, Shaun, Peter Leamy, Guilherme Bystronski… Foi o meu jeito de me aproximar de uma preparação de alto nível.

Quanto ao planejamento de longo prazo, realmente estipulei em cinco anos um prazo factível pra passar.

Sabia que corria o risco de levar mais tempo, mas esse era o deadline que previ para minha reserva financeira e para a paciência de minha companheira.

Felizmente, deu certo antes do planejado, porque o dinheiro acabou (não coloquei a inflação na equação), eu ia ter que voltar a trabalhar mais e, com minha esposa grávida, eu iria ter que me defender em duas duras frentes de combate, coisa que a Alemanha já demonstrou em duas guerras que não dá certo.

Clipping: Na entrevista do Clipping com a Marianna chegamos a falar da importância de se manter motivado. Em algum momento ao longo dessa trajetória você chegou a pensar: “não dá, isso não é para mim, vou desistir”?

Douglas Nascimento: Sim. Após a reprovação em 2015, eu achei que não ia dar.

Fui muito mal em línguas! Menos de 30% em Inglês e Francês/Espanhol.

“Como posso querer ser diplomata com esse score em línguas?”.

Tudo começou a pesar mais. O fato de eu ser de uma área de formação muito distante das disciplinas do concurso, de ter de começar a estudar tudo sempre do zero, longe dos grandes centros de preparação, ser obrigado pelas circunstâncias a continuar a trabalhar, com filha com três anos àquela altura, planejamento de um segundo filho que não queria mais adiar…

Eu mantinha pouco contato com outros cacdistas pra saber se tinha alguém humano se preparando com problemas como esses, ou somente virtuosos infalíveis. E também não achei em nenhum lugar orientação a esse respeito.

Mas eu me dei uma semana de intervalo pra recalcular a rota. Refleti sobre as estratégias de estudo. Passei a estudar em biblioteca, mais pela manhã que à noite, passei a me debruçar sobre o histórico das provas trazido pelos Guias de Estudos, li menos livros inteiros e mais capítulos selecionados, entre outros ajustes metodológicos.

Enfim, aumentei a eficiência dos estudos e a coragem voltou.

Clipping: Questão polêmica mas que não dá para evitar: cotas. Quando você passou em um dos vestibulares mais concorridos que é o de Medicina na UFBA ainda não existia a política de cotas. Anos depois, no CACD, você se declarou para concorrer pelas cotas, mas acabou passando na concorrência geral. Você viveu a realidade de um Brasil sem cotas e agora vive a realidade de um Brasil com cotas. Como você vê os usos (e os abusos) dessa política pelos candidatos ao CACD? 

Douglas Nascimento: Sou absolutamente favorável à política de ação afirmativa por meio de cotas em concursos públicos para negros e portadores de necessidades especiais. Considero uma reparação presente justa de desigualdades históricas, com perspectiva de trazer maior harmonia social futura.

Eu seria favorável da mesma forma se não fosse negro. Para mim, não se trata de uma questão de luta pra ampliar meus direitos particularmente. Trata-se de uma opção ideológica.

Vejo uma sociedade melhor com igualdade racial, com igualdade de gênero, sem desigualdades sociais, com liberdade de orientação sexual, com tolerância religiosa e étnica, sem que necessariamente eu faça parte do grupo desfavorecido cujo direito eu defendo.

Quanto à implementação das políticas de ação afirmativa, confesso que não reúno conteúdo teórico suficiente para julgar quais são as melhores alternativas e critérios a serem aplicados na realidade brasileira.

O pragmatismo que eu adotei na preparação para o CACD me afastou, infelizmente, de leituras mais aprofundadas sobre questões sociais tão relevantes como essa. Uma vez dentro do ministério, pretendo suprir essa falha de minha formação e tentar contribuir com as discussões sobre o tema.

De antemão, já noto que há estratégias que eu considero efetivas.

Por dois anos, eu fui beneficiário dos recursos financeiros (R$ 25.000,00 anuais) que o ministério disponibiliza para negros no programa de Bolsa de Ações Afirmativas. Certamente minha profissão me permitiria arcar com todos os custos de minha preparação. Sabemos também que se gasta bem mais do que isso pra passar. Ninguém que pretende se preparar em alto nível pode negligenciar essa variável financeira. Mas, pra mim, mais trabalho seria igual a menos estudo e mais demora pra passar.

Como o critério da bolsa é meritocrático (prova) e étnico (afrodescendência), fui contemplado, e o auxílio me permitiu trabalhar menos e estudar mais. Não creio que eu já teria sido aprovado em 2016 sem o suporte da política.

Clipping: Como você e sua família estão lidando com essa logística maluca de se mudar em tempo recorde para Brasília após a divulgação do resultado oficial?

Douglas Nascimento: Com o perdão dos colegas pelo clichê deprimente, é um legítimo se vira nos 30 dias!

E em período de festas de fim de ano. Achar passagem não tão cara durante a madrugada, implorar por vaga em escolas com lista de espera de três anos, alugar apartamento, entender melhor aquela numerologia de Brasília…

Com maior ou menor grau, todos os aprovados enfrentam mudanças como essas em suas vidas. Pra mim, apesar do trabalho que estou tendo, tudo virou problema menor agora, porque estou muito feliz com a aprovação.

Clipping: Pergunta clássica: Se lhe fosse dada autonomia completa para reformular o CACD. O que mudaria?

Douglas Nascimento: Todo processo seletivo é falho. Sinceramente, não sei se eu conseguiria sugerir melhoras no ciclo de provas. Mas com certeza eu voltaria a oferecer bibliografia obrigatória. Acho mais justo com os candidatos que eles saibam sobre o que serão cobrados. Não tendo uma formação especializada em Ciências Sociais e Humanas, eu senti muita falta de saber por onde estudar PI e Geografia, por exemplo, dentro da imensidão de temas dessas disciplinas. A especificação de livros de referência, como era até 2010, teria facilitado minha vida.

Clipping: Sem querer jogar para você o peso da comparação, mas não tem como não olhar para sua história sem lembrar um pouco da do Guimarães Rosa, que como você tem origens sertanejas e formação em ciências médicas e um espírito autodidata. O que te inspirou a colocar a Medicina em segundo plano e trazer a Diplomacia para o primeiro? 

Douglas Nascimento: Fico lisonjeado com qualquer longínqua associação, mas a comparação está anos-luz de ser factível. Guimarães Rosa dominava quase todas as línguas ocidentais e tinha uma maestria na expressão que sete encarnações não seriam suficientes para me prover. Sou do grupo dos que labutam pra falar uma palavra e que duvidam de tudo o que escrevem.

Quanto à escolha pela diplomacia, a dificuldade em responder a essa pergunta me levou a esconder minha opção de meus pais, de amigos e de colegas médicos durante quase toda minha preparação. Racionalmente, posso dizer que a amplitude de conhecimento mobilizado pela carreira, a versatilidade das atividades desempenhadas, a possibilidade de conhecer novas línguas e culturas, a estabilidade financeira no longo prazo, poder estar mais com a família nas noites e datas festivas são fatores práticos que pesam.

Emocionalmente, eu queria esse troço de ser diplomata. Sabe-se lá por quê. Deve ser um vírus ainda não identificado pela Medicina, porque percebi que todos naquele ministério padecem desse mal que justifica tanto sacrifício.

Bate-bola clássico como Clipping, topas?

Um programa de TV favorito: Não é Peppa Pig, mas é o único que consigo assistir.

Algo para se fazer no tempo vago: Em casa, um filme. Na rua, um chopp.

Um lugar onde gostaria de servir: Inglaterra.

Um filme: Abril Despedaçado

Uma banda: Radiohead

Uma brincadeira de criança: Futebol na rua

Um diplomata (Barão não vale): Joaquim Nabuco

Curtiu a entrevista com o Douglas? Deixe um comentário aí abaixo que o Clipping não deixa ninguém no vácuo!

Summary
Depoimento de um aprovado no CACD | Cipping CACD
Article Name
Depoimento de um aprovado no CACD | Cipping CACD
Description
Você quer passar no CACD? O que é melhor do que um depoimento de um aprovado no concurso? Aprenda com um aprovado no CACD agora mesmo! Clique aqui!
Author
Publisher Name
Clipping CACD
Publisher Logo

  • Clipping

    Uma plataforma de estudos capaz de te ajudar a estudar com autonomia, através de planos de estudo, roteiros de leitura, mapas mentais, resumos e simulados.



Clipping

Uma plataforma de estudos capaz de te ajudar a estudar com autonomia, através de planos de estudo, roteiros de leitura, mapas mentais, resumos e simulados.

CACD

Os desafios da mulher na diplomacia...

  • Ana Clara Carvalho
    Ana Clara Carvalho
    21 min de leitura
CACD

Como estudar francês para o CACD...

  • Igor Barca
    Igor Barca
    11 min de leitura
Mais Ferramentas
Conteúdo