Como estudar francês para o CACD

  • Igor Barca
    Igor Barca
    07/03/2019 . 11 min de leitura
como estudar frances para o cacd

Você decidiu que deseja servir o seu país no exterior como diplomata. Ótima notícia! Ser diplomata é o sonho de muitos e por diferentes motivos. Pouco importa quão nobre seja a sua razão, o caminho para chegar lá é um só: ser aprovado no CACD, o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata.

São muitas disciplinas para estudar e três idiomas estrangeiros para aprender. Geralmente, o candidato opta por estudar mais as disciplinas como História, Política Internacional ou Economia, seja pelo grau de interesse ou pelo grau de dificuldade. E o que acontece com Francês e Espanhol? Entendamos um pouco melhor esse contexto.

Desempenho de Francês e Espanhol no último CACD (2018)…

Analisando um pouco o gráfico seguinte, que contempla o desempenho médio dos candidatos aprovados e dos não aprovados do ano de 2018, constatamos duas diferenças significativas:

  1. O desempenho em Francês e Espanhol quando comparado com o desempenho nas demais disciplinas;
  2. O desempenho em Francês e Espanhol dos candidatos aprovados em contraste com aquele dos que não foram aprovados.

Em ambos os casos, Francês e Espanhol representam o pior desempenho, com uma diferença de pontuação enorme em relação às outras matérias do concurso. Apenas essa breve análise seria suficiente para convencer você a se dedicar mais aos idiomas estrangeiros. Mas, continuemos.

No primeiro caso, dentre os candidatos que ficaram fora das vagas, vemos que a diferença de pontuação entre o melhor e o pior desempenho chegou a 30 pontos (Inglês: 72 pontos, Francês e Espanhol: 42 pontos). Depois do Francês e Espanhol, a pior média foi de 63 pontos em Política Internacional, uma diferença de 21 pontos. A média das outras 7 disciplinas foi de 67,3 pontos.

Ainda no primeiro caso, observamos o mesmo fenômeno dentre os candidatos que conseguiram ingressar no Instituto Rio Branco. A diferença entre o melhor e o pior desempenho, no entanto, foi de “apenas” 21 pontos (Inglês: 82 pontos, Francês e Espanhol: 61 pontos). A média de desempenho das outras 7 disciplinas foi de 78,6 pontos.

Analisando brevemente o segundo caso, vemos que os candidatos que hoje estão no curso de formação obtiveram 61 pontos em Francês e Espanhol contra os 42 pontos dos que não conseguiram a vaga. Uma diferença de 19 pontos, um valor significativo se considerarmos a concorrência do concurso.

O que esses dados nos mostram? Que há uma grande dificuldade em se obter uma boa pontuação em Francês e Espanhol. É verdade que o Cespe cometeu alguns deslizes na correção das provas de idiomas do ano passado (2018) – corrigidos em parte pelos recursos -, mas esse abismo entre o desempenho nas provas de línguas estrangeiras e nas demais disciplinas tem se mostrado presente ao longo dos últimos anos.

Quando pensava sobre os problemas que poderiam levar a tal desempenho, minha mente alternava entre a preterição desses idiomas e o desconhecimento de técnicas de estudo eficazes. Infelizmente, não posso resolver o primeiro problema, mas posso colaborar para mitigar o segundo.

Como estudar francês para o CACD? Vou listar os três elementos que considero essenciais e explicar um pouco sobre essa tríade.

 

1º – Estude Francês para a prova do CACD

O primeiro elemento que devemos considerar é o foco. Um curso regular de idiomas busca aprimorar as quatro habilidades: fala, escuta, escrita e leitura. Na prova do CACD, utilizaremos apenas as duas últimas, precisaremos apenas ler e escrever. Então, por que perder tempo desenvolvendo habilidades que não serão úteis para o exame? Deixei aqui para você um vídeo sobre o principal erro do CACDista na preparação para a prova de francês.

Precisamos ler bastante em francês, mas apenas a leitura não é suficiente para melhorar o nosso desempenho na prova; é preciso levar o que foi lido para a nossa escrita, é preciso transferir o que está em nossa compreensão para a nossa expressão. E isso só pode ser feito com uma leitura atenta, sublinhando e registrando palavras, expressões e estruturas que poderão ser úteis em nossas próximas produções escritas.

A leitura atenta é indispensável, mas também é preciso estudar vocabulário e gramática separadamente, com livros (ou sites) específicos. Conversaremos sobre isso mais tarde.

2º – Crie o Hábito de estudar francês para o CACD

O segundo elemento é o hábito. Dizem que a motivação nos faz começar, mas é o hábito que nos faz continuar. É preferível estudar alguns minutos todos os dias a estudar 2 horas em um único dia da semana.

Para conseguir manter um hábito, inicialmente é preciso criá-lo. Um livro de publicação recente que trata do tema é o best-seller The Power of Habit. Caso ainda não o tenha lido, não perca seu tempo, vou resumi-lo em uma única imagem:

loop do hábito

Pronto. Agora, você já conhece todo o conteúdo de suas mais de 300 páginas: um hábito é criado a partir de um gatilho, que desperta uma necessidade quase fisiológica por uma ação, ação esta que, quando realizada, traz uma recompensa imediata ao cérebro. Tudo o que você precisa para criar um hábito é de um gatilho eficaz.

O que pode ser um gatilho? Dois exemplos: um outro hábito, como tomar banho, almoçar, escovar os dentes; ou um objeto, como um livro, uma caneta, uma xícara de café. Sempre que você acionar um desses gatilhos, você deve associá-lo imediatamente ao hábito que você deseja desenvolver.

Uma certa organização é necessária, porque pouco adianta você escovar os dentes e lembrar-se de estudar se o que você deve fazer a seguir é voltar ao seu trabalho. Então, além do gatilho, é preciso que tenha tempo disponível logo a seguir, para iniciar o hábito.

Foi o que fiz para começar a aprender francês: desenvolvi o hábito do estudo, reservei um tempo ao idioma e criei uma biblioteca de recursos, que nada mais é do que uma seleção de material que você deseja ler e estudar. No vídeo abaixo, explico melhor sobre o que chamei de “Pratique journalière”.

3º – Tenha os materiais essenciais para estudar Francês

O terceiro elemento a ser discutido é o material. Montar a sua biblioteca de recursos é essencial para que você não perca tempo pensando o que vai fazer naquele dia. A sua biblioteca deve incluir textos de várias fontes, mas também material esquematizado, que vai ajudar muito quando se sentir perdido.

Sugiro três tipos de livros: um dicionário, um livro de gramática e um livro de vocabulário.

Você vai precisar de dois dicionários: um monolíngue e um bilíngue. O dicionário monolíngue vai ajudar no desenvolvimento de uma rica carteira de sinônimos, fundamental para melhorar o seu nível de escrita. E, para que as suas versões sejam indefectíveis, o apoio de um dicionário bilíngue é indispensável. Minhas recomendações: dicionário monolíngue → Larousse; dicionário bilíngue → Reverso (português-francês-português) ou Wordreference (inglês-francês-inglês).

O livro de gramática mais célebre se chama Grammaire progressive du français. (As capas apresentadas no decorrer deste artigo, podem não corresponder com a edição mais recente dos livros) 👇

 

Na verdade, não é apenas um livro, mas uma série de livros dividida em diferentes níveis, que vão desde o débutant ao perfectionnement. A estrutura é sempre a mesma: breve explicação dos tópicos gramaticais e dezenas de exercícios de fixação. O grande inconveniente desta coleção é que as correções dos exercícios são vendidas separadamente, o que requer do estudante um investimento a mais.

Caso você ainda não tenha adquirido a gramática do parágrafo anterior, deixe-me apresentar uma outra: Grammaire en dialogues.👇

grammaire_en_dialogue

O objetivo e o funcionamento são basicamente os mesmos, com duas grandes diferenças. Primeiramente, além das explicações gramaticais e dos exercícios, você conta com um diálogo introdutório, que vamos encarar não como produção oral, mas como produção escrita. Segundamente, as respostas dos exercícios acompanham o próprio livro, ou seja, não será necessário adquirir um novo material.

O interessante de ler os diálogos é que, apesar de, muitas vezes, nos depararmos com linguagem informal, podemos ver a gramática aplicada no texto, na fala dos personagens. Claro que os diálogos são um tanto artificiais, mas é preciso lembrar que a maioria das frases presentes em livros de gramática tradicionais também o são.

Para a aquisição de vocabulário, a prática da leitura atenta é muito útil, mas seria interessante utilizar, paralelamente, um livro estruturado, com vocábulos divididos por temas e exercícios de fixação. Recomendo qualquer livro do gênero que já inclua as respostas dos exercícios, sendo o mais conhecido o da coleção Bled.

Também há outras opções no mercado, como o da coleção Practice Makes Perfect: French Vocabulary, que traz, além de uma boa seleção de exercícios, breves explicações e traduções para o inglês.

Como já disse anteriormente, não adianta parar por aí, é necessário aplicar tudo o que foi aprendido em sua escrita. Para isso, é preciso encontrar um ambiente ideal para a prática da escrita e um bom professor para corrigir os seus textos. Essa correção será essencial para que você veja o que ainda precisa melhorar e o que de fato foi fixado.

A partir de seus erros mais frequentes, você poderá criar uma lista de tópicos a estudar e ficará atento a esses deslizes em suas próximas produções. Há um ditado francês que diz:

Le sot fait des erreurs, le sage en tire des leçons

Sejamos sábios para tirar lições de nossos erros.

Conclusão

Resumindo tudo o que escrevi no artigo, a solução para aumentar o desempenho na prova de francês é aplicar o foco correto nas habilidades necessárias para a prova (a leitura e a escrita), criar o hábito do estudo, selecionar bem os materiais de apoio e ter um bom professor para corrigir seus exercícios.

Estudar diariamente, por alguns minutos, é melhor do que reservar apenas um dia para o estudo do idioma. Você pode usar livros e cursos em vídeo mais estruturados, mas também pode (e deve) usar outros textos de assunto de seu interesse, como notícias, poemas ou até mesmo letras de música. Pratique gramática, crie listas de vocabulário e escreva muito. Esteja atento aos seus principais erros e utilize-os para melhorar seus próprios textos.

Dedicando-se dessa forma, você com certeza melhorará o seu nível de francês em pouco tempo e perceberá a sua evolução de uma forma mais clara e objetiva. Desejo uma ótima continuação e espero que tenha conseguido colaborar de alguma forma para o seu aprimoramento. Merci et à la prochaine!


  • Igor Barca
    Igor Barca

    Igor Barca se formou em Letras - Língua Francesa pela UFRN e pela Université de Nantes. Fala vários idiomas e ensina francês e inglês para o concurso de diplomata desde 2010. Já colaborou com a aprovação de dezenas de candidatos. Site: www.estudeidiomas.com e Instagram: @estudeidiomas


Igor Barca
Igor Barca

Igor Barca se formou em Letras - Língua Francesa pela UFRN e pela Université de Nantes. Fala vários idiomas e ensina francês e inglês para o concurso de diplomata desde 2010. Já colaborou com a aprovação de dezenas de candidatos. Site: www.estudeidiomas.com e Instagram: @estudeidiomas