Como o filme “Corações Sujos” representou as dores e os traumas da imigração japonesa no Brasil pós-guerra

  • Guilherme Praça
    Guilherme Praça
    23/09/2020 . min de leitura

No dia 15 de agosto de 1945, enquanto ainda pairava sobre o ar a poeira radioativa de Hiroshima e Nagasaki, a voz rouca do imperador Hirohito surgiu em todos os rádios às 12h. O discurso gravado anunciava o impensável. Com uma voz baixa, cheia de ruídos e falando em keigo (variante da língua japonesa para situações formais), o imperador (para os japoneses o herdeiro da deusa Amaterasu) anunciou uma “medida extraordinária”. 

O Império do Japão assinaria a Declaração de Potsdam, aceitando os termos de rendição impostos pelos Aliados. Enquanto justificava as razões dessa decisão e desculpava-se pelos mortos, o imperador ainda “profetizou” os tempos sombrios que se aproximavam para seus súditos:

“As durezas e sofrimentos o qual o nosso povo será sujeitado daqui em diante será grande […] é de acordo com os ditames do tempo e destino que nós resolvemos cimentar o caminho da grande paz para todas as gerações vindouras, suportando o insuportável, sofrendo o que é insofrível.” 

Na verdade, o insuportável sempre foi uma realidade para os nikkeis (imigrantes japoneses), mas os anos da guerra e a rendição do império tornaram as condições ainda piores. Pelo menos no Brasil, desde 1908 que japoneses chegavam nos portos em condições miseráveis e sem muita simpatia da “pátria mãe gentil” com os visitantes. Migrando em núcleos familiares, sem muito dinheiro, enganados por utopias e obtusos à nova realidade, esses japoneses definitivamente suportaram o insuportável, principalmente na década de 40.

A história dessas famílias e a formação das colônias japonesas já foi estudada por diversos livros e documentários, mas no cinema de ficção, apenas um pequeno nicho de filmes se debruçou sobre esse tema. 

Um dos precursores dessa abordagem foi “E a paz volta a reinar” (1956), que aborda os conflitos pós-guerra no interior da colônia. Dez anos depois foi a vez do comediante Amácio Mazzaropi também falar sobre a imigração em “Meu Japão brasileiro” (1965). Essas primeiras tentativas na ficção não tiveram muito sucesso, sendo a primeira um material antigo e pouco visto, enquanto a segunda, apesar de um produtor famoso, abordou a questão em cima dos estereótipos e de uma visão grotesca dos japoneses. 

Assim, foi com a diretora Tizuka Yamasaki que a questão japonesa recebeu uma atenção especial no cinema de ficção e conseguiu maior visibilidade. Com os filmes “Gaijin, Caminhos da Liberdade” (1980) e “Gaijin, Ama-me como Sou” (2010), Yamasaki conseguiu trazer um novo fôlego para o tema. 

Enfim, em 2012, uma nova produção (envolvendo a parceria de produtoras brasileiras e japonesas) trouxe para as telas uma das principais abordagens atuais sobre a migração japonesa para o Brasil: “Corações Sujos” (2012), de Vicente Amorim. 

A obra explora justamente o contexto da problemática rendição de Hirohito, abordando os dramas da comunidade que já haviam aparecido em “E a paz volta a reinar”. Apesar da semelhança com o longa de 1955, o filme se estabelece como uma adaptação parcial de outra obra, o livro do jornalista Fernando Morais (2000), que também tem o mesmo nome. 

Mas, assim como qualquer obra cinematográfica, mesmo sendo a adaptação de um livro, Corações Sujos, naturalmente, estabelece diálogos com as produções fílmicas precedentes. O riquíssimo cinema japonês pode ser observado nas diversas camadas do filme de Amorim, sobretudo em diálogo com um dos principais diretores nipônicos do século XX, o mestre Akira Kurosawa. 

Portanto, por ora, as reflexões do texto se concentram em Corações Sujos e na dramática condição dos nikkeis no Brasil, em 1946. Mas, convido também à leitura de outras reflexões que realizei sobre o filme “Anatomia do medo” (1955), de Kurosawa, e suas relações com os traumas da bomba, a imigração pós-guerra e o imaginário estrangeiro sobre o Brasil. 

Vale destacar que, nessas duas histórias, podemos perceber a narrativa fluir através da insistência de dois idosos em suas convicções. Fés inabaláveis que são questões centrais para o desenvolvimento dos dramas narrados. Logo, enquanto em Corações sujos, o Sr. Watanabe deseja ardentemente estabelecer a guerra no Brasil, em Anatomia do Medo, o protagonista Nakajima busca no mesmo país o oposto, a sonhada paz. 

Analisando os filmes e a história, percebo que essa dualidade se estabelece na migração japonesa durante esse período de transição para o mundo pós-guerra. Uma dualidade composta por japoneses traumatizados e orgulhosos. 

O início da imigração japonesa no Brasil

Antes de explorarmos o filme e a mencionada convicção do obstinado Watanabe e seus parceiros, é válido pensarmos um pouco sobre a trajetória dos imigrantes japoneses para o Brasil, como forma de contextualização.

Assim, podemos retornar ao período Meiji (1867-1912), quando as primeiras mudanças no Japão tiveram como consequência o estímulo à emigração. Nessa fase, conhecida pela reabertura política e econômica do país, que havia passado séculos em isolamento, as reformas provocaram grandes impactos sociais, políticos, econômicos e culturais. 

Entretanto, apesar de se modernizar em um ritmo intenso, o Japão voltava seus investimentos principalmente para a industrialização e para o setor bélico. Logo, enquanto o exército crescia, a qualidade de vida no país não apresentava melhorias reais para lavradores ou operários. Não à toa que, em 1905, o pequeno país surpreendeu o mundo ao derrubar o “gigante de pés de barro” na Guerra Russo-Japonesa, enquanto parte da população passava fome. 

Mas afinal, o que levou milhares de japoneses a abandonarem seus compatriotas e lares para viverem em um país que talvez nem soubessem apontar no mapa? Segundo a pesquisadora Lino Kojima, em sua dissertação defendida na USP, para compreender esse processo migratório precisamos nos atentar para os fatores de atração-repulsão. 

Assim, a pobreza e a falta de empregos e terras eram fatores de repulsão para os japoneses, enquanto a disponibilidade de terras e a política migratória brasileira para fomentar a produção do café, no início do XX, seria um fator de atração.  

Logo, tendo em vista essa dicotomia, companhias privadas trataram de realizar acordos com o próprio governo brasileiro para trazer os primeiros japoneses para o país. Assim, no dia 18 de junho de 1908, a embarcação nipônica Kasato Maru atracou no porto de Santos, com 781 filhos da terra do sol nascente. 

O navio japonês Kosato-Maru atracado no porto de Santos em 1908.

É quase irônico notar que há alguns anos antes esse desembarque seria impensável, pois o decreto nº 528 (1890), de Deodoro da Fonseca, havia proibido a entrada dos chamados “amarelos” (como eram chamados os asiáticos) no Brasil. A prioridade original era substituir a mão de obra negra pela europeia, fomentando um bem conhecido projeto de embranquecimento da população. 

Mas, com a proibição da imigração italiana para o Brasil, por parte do governo italiano (1902), somado à vitória japonesa na guerra de 1905 e à retomada da valorização do café, a barata mão de obra japonesa passou a ser um refúgio para os cafeicultores, que trataram de derrubar o decreto nº 528. Em 1924, com a proibição da imigração japonesa para os Estados Unidos, o Brasil se tornou um alvo ainda mais visado pelos japoneses. 

A perseguição e as mazelas de nikkeis no Brasil

Antes de 1942, quando já acontecia a Segunda Guerra Mundial e o Brasil passava a se posicionar ao lado dos Aliados, os principais imigrantes em terras brasílicas eram alemães, italianos e japoneses. Essas famílias chegavam para trabalhar principalmente nos cafezais espalhados pelo interior de São Paulo e pela região Sul e na recém formada indústria. 

Infelizmente, para os japoneses, dos 3 grupos, eles eram os mais indesejáveis pelos governos brasileiros. Tendo em vista que as políticas de branqueamento buscavam na miscigenação europeia uma fuga para os negros e “mulatos” do país, os asiáticos seriam, portanto, mais um problema racial. 

Assim, o maior inimigo dos nipônicos no novo lar foram justamente os médicos. Estes, embebidos pela ciência europeia, defendendo as teorias de hierarquias raciais e projetando uma nação eugênica (teoria que defendia uma seleção artificial de características humanas, sobretudo europeias, para a melhoria da raça), buscaram logo afastar o tal do “perigo amarelo”. 

Desta forma, os discursos xenofóbicos e racistas inundaram a imprensa no início do século passado. Podemos observar a seguir, inclusive, charges publicadas na revista carioca “O Malho” (edição de 05/12/1908), que criticava abertamente o governo por aceitar tais imigrantes, pois estes seriam uma raça inferior e reduziriam as oportunidades de empregos.

Charges publicadas na revista “O Malho” (05/12/1908).

Esses argumentos continuaram aparecendo inúmeras vezes ao longo dos anos, acompanhando a construção da comunidade nipônica no Brasil. Quanto mais cresciam com os fluxos migratórios e com o nascimento de nisseis (segunda geração), maior parecia a ameaça para os nacionalistas brasileiros.

Assim, em 1930 e 1940, figuras como Arthur Neiva, Miguel Couto, Félix Pacheco e outros bateram na tecla do perigo que tais imigrantes representavam. Até porque, para homens tão empenhados na construção de um projeto de Brasil, tais imigrantes poderiam ser um obstáculo para a identidade nacional.  

Fernando Morais afirma que, em 1934, Miguel Couto, preocupado com a taxa de 25 mil imigrantes que chegavam anualmente, teria alegado na Câmara que: “Se a emenda não for aprovada, só me resta ensinar japonês aos meus netos”. A emenda em questão era a conhecida como “lei de cotas”, que passou a determinar um limite de entrada de 2% do total de imigrantes que haviam chegado nos últimos 50 anos, como forma de resolver esse “problema”.

Com a Segunda Guerra Mundial, naturalmente, essa perseguição ganhou novas camadas. Os japoneses deixaram de ser indesejáveis e se tornaram plenamente inimigos da pátria. Logo, foi justamente nesse momento, ao se tornarem oponentes, que os maiores esforços para “entendê-los” foi realizado. 

Nos Estados Unidos, por exemplo, durante a Guerra do Pacífico, diversos estudos foram realizados para compreender o Império do Japão e seus súditos. Em 1944, a antropóloga Ruth Benedict recebeu o pedido de uma pesquisa sobre esse tema, publicando em 1946 o trabalho “O crisântemo e a espada: padrões da cultura japonesa”. Nele, a autora afirma que na guerra contra os japoneses, as questões militares e bélicas não bastariam para vencer, pois havia também uma importante perspectiva cultural.

Assim, era necessário entender os japoneses, tão isolados em suas comunidades, para compreendê-los como imigrantes, presos políticos, guerreiros e inimigos. Afinal, como entender o sacrifício de tantos japoneses em nome de uma honra e fidelidade ao imperador? 

Tendo em vista esse princípio, o governo dos E.U.A também encomendou em Hollywood estudos fílmicos sobre a guerra e os inimigos, utilizando o cinema como uma arma. Assim, foi nesse cenário que o diretor Franz Capra realizou seu documentário de propaganda “Know your enemy: Japan”, voltado para a campanha antinipônica e para convencer civis e militares da importância da guerra. 

Enquanto o trabalho de Benedict tenta se afastar das ideias racistas e do determinismo cultural, muito graças à influência de Franz Boaz, o documentário de Capra parece não fazer qualquer questão disso. O filme afirma que as comunidades de imigrantes japoneses na América seriam conectadas por um espírito japonês, submetido completamente à fidelidade ao imperador. 

Logo, sugere que tais imigrantes seriam possivelmente espiões e que deveriam ser observados pelas comunidades americanas locais e pelas autoridades. O argumento de Capra é baseado na doutrina japonesa do Hakko Ichiu, que defendia que há milênios o lendário imperador Jimmu havia legado aos japoneses a missão de “unificar os oito cantos do mundo sob o mesmo teto”. Essa doutrina, portanto, foi um ponto fundamental para o temor dos Aliados. 

Assim, seja nos Estados Unidos ou no Brasil, esses imigrantes passaram a sofrer as consequências da guerra e dessas políticas difamatórias. No caso americano, os imigrantes chegaram a ser presos em campos de concentração na costa oeste, tratados com profundo desprezo e violência.

Já no Brasil, a maior parte da opressão aos novos inimigos veio através da supressão de seus direitos e de sua cultura. Os decretos arbitrários de Vargas proibiram, ainda em 1938, o uso de línguas estrangeiras, seja falada ou em publicação impressas. Após 1942, com o rompimento das relações diplomáticas com o Japão, os imigrantes também foram impedidos de exaltar a bandeira inimiga, realizar encontros políticos e cerimoniais, usar armas, sair do país ou mudar de casa sem permissão e até mesmo realizar uma educação japonesa aos nisseis

Com as constantes batidas policiais, os japoneses também passaram a ter suas posses confiscadas, censurando inclusive cartas enviadas para o exterior ou notícias que chegavam de sua terra natal. Percebe-se que suportar o insuportável já era uma realidade para os japoneses antes mesmo do aviso imperial de 1945. 

A adaptação cinematográfica de Corações Sujos

Tendo em vista todo esse cenário, podemos agora analisar o drama de Takahashi como um exemplo do que muitos imigrantes passaram no Brasil, sobretudo, de um grupo que tentou manter vivo o Yamato-damashii, o “espírito japonês”. 

Mas então, o que esse personagem tem em comum com tantos outros imigrantes? O protagonista de Corações Sujos teria chegado ao país ainda na primeira metade do século XX, mas não se dedicou ao aprendizado da língua portuguesa ou à assimilação da cultura local, pois como muitos japoneses, ainda sonhava com a volta para casa.

Assim, Takahashi e sua esposa Miyuki vivem em uma vila de agricultores, sem trabalhar no campo, pois ele é fotógrafo e ela professora. Em seu pequeno estúdio, japoneses sonhadores sempre encontram uma dualidade: por trás do painel de fundo com a imagem tropical, havia o papel de parede com a paisagem japonesa, quase escondido. Assim, os fotografados poderiam escolher um retrato abraçando o novo lar, ou o outro, reforçando suas identidades. Dicotomia essa também muito presente na própria personalidade do protagonista. 

Desta forma, através de Takahashi e outros personagens, a obra de Amorim embarca em uma livre adaptação do primeiro capítulo do livro de Fernando Morais. Amorim, portanto, explora o período pós-guerra, mas focando principalmente em eventos que ocorreram em janeiro de 1946, na cidade de Tupã, interior de São Paulo.

Tudo começa quando policiais brasileiros proíbem com violência uma reunião de japoneses que exaltavam a bandeira do império e que se recusavam a acreditar na rendição. Assim, a Força Pública Paulista chega ao local para estabelecer as leis do Estado Novo ainda vigentes e para oprimir os súditos do eixo, gerando um conflito violento. 

Vale destacar nessa cena que, na tensão entre policiais e japoneses algumas questões estavam em jogo: primeiro, o próprio poder e orgulho das autoridades brasileiras; segundo, a celebração dos japoneses ao início do ano 21 da Era Showa, negando portanto a derrota do país; terceiro, a honra do nacionalismo nipônico, abalada pelos policiais e pelo cabo Garcia (no livro de Morais o cabo se chama Edmundo Vieira Sá) que havia limpado sua bota com a sagrada bandeira japonesa.

Após toda essa situação delicada, restava apenas uma coisa a ser feita pelos nikkeis. Para manter a honra de seu espírito nacionalista, deveriam vingar a bandeira com a morte de García. Logo, eis que surge a liderança e a retumbância dos ideais de Watanabe, promovendo uma vingança contra os traidores. Vingança essa que se torna a palavra síntese do filme. 

Primeiro, os “sete samurais de Tupã” desfilam armados pelas ruas atrás do cabo. Apesar da perseguição não alcançar o inimigo do Sol Nascente, os sete voltam a se reunir, mas, em seguida, direcionam sua raiva contra os próprios japoneses. A vingança, agora, seria contra os “traidores”, assassinando todos aqueles que negassem a invencibilidade do Império do Japão. 

Assim, o filme adapta de forma fictícia a cruel realidade da comunidade japonesa nos anos 40, o caso dos “sete samurais de Tupã” e a atuação do grupo criminoso Shindo Renmei. Logo, por essa perspectiva, o longa representa em um microcosmo as perseguições do governo brasileiro, o racismo, a miséria, as angústias com a guerra e as disputas internas da comunidade nipônica vivendo no país inimigo.

Os “sete samurais de Tupã” em cena de Corações Sujos.

Uma sangrenta disputa de narrativas: kashigumis x makegumis

Liderados pelo radicalismo de Watanabe, um orgulhoso ex-coronel do Exército Imperial Japonês, os sete indivíduos do filme são movidos por um ultranacionalismo incapaz de aceitar que o grande império, que em 2600 anos jamais havia se rendido, teria tão melancólico fim. 

Esses homens amargurados pelos destinos da guerra e por viverem no país do inimigo fazem parte da organização criminosa Shindo Renmei. O grupo original iniciou suas atividades ainda durante a guerra, sendo criado em 1942 pelo ex-coronel Junji Kikawa. Inicialmente a atividade terrorista era muito voltada para o boicote e destruição da produção de seda e hortelã, pois eram utilizados para fabricação de paraquedas e nitroglicerina para os Aliados, mas com os anos se tornaram cada vez mais violentos.

Logo, após a transmissão radiofônica de Hirohito, os membros da Shindo Renmei simplesmente negaram qualquer possibilidade de os “filhos do sol” terem realmente se rendido, seria um absurdo. A transmissão, para os integrantes do grupo, não passava de mais uma das diabruras dos Aliados, imitando a sagrada voz de Hirohito e brincando com a força do império. 

Ora, tendo em vista que a gravação de péssima qualidade e o idioma keigo, de fato, dificultavam a compreensão da mensagem e como o imperador não havia usado as palavras “rendição” e “derrota”, podemos compreender a facilidade com que o nacionalismo borrou a realidade. 

A Shindo Remnei, portanto, utilizou essas lacunas para criar uma sangrenta disputa de narrativas. Enquanto estes se firmaram como negacionistas, ou melhor, como kashigumis, estabeleceram aqueles que acreditaram na rendição como traidores da pátria. Os “derrotistas” então passaram a ser chamados de “corações sujos” e conhecidos como makegumis. 

No filme de Amorim, o primeiro makegumi a ser assassinado é Aoki, o tradutor que ajuda os policiais, sob pressão, a interrogar os “samurais”. Aoki, no filme, é tão vítima das autoridades brasileiras quanto Watanabe, mas ainda assim, por sua colaboração com o “inimigo” é marcado como um traidor da pátria.

No livro, Morais relata que o tradutor já havia sofrido ameaças na própria delegacia, quando recebeu a mensagem dos compatriotas: “Lave sua garganta”. Essa ameaça, muito utilizada por militares japoneses, significava que o traidor tinha a pele suja e, portanto, deveria se lavar antes de ter sua garganta cortada pela lâmina pura da katana. 

Visto isso, apesar da atuação desses jovens armados e da intransigência moral e filosófica, ainda há espaço entre eles para a dúvida. O fotógrafo Takahashi é um dos principais algozes do radical líder Watanabe, mas mesmo assim é a síntese das incertezas. Ao perder sua esposa e amargurar o sangue de inocentes em suas mãos, passa a questionar se a verdade pela qual luta condiz com os fatos. 

Essa incerteza se amplia no final, quando o líder Watanabe pede para Takahashi falsificar algumas fotografias de Hirohito, para reforçar a narrativa kashigumi. Ora, eis que surge a questão: se eles estavam certos, por que deveriam falsificar as notícias e imagens? Para que distorcer os fatos? 

Essa prática, segundo Morais, realmente foi muito utilizada pelos negacionistas, como forma de convencer a população local e burlar a censura ainda vigente. No entanto, Takahashi recebe a ordem com arrependimento, e, enfim, abre mão do negacionismo, passando a conviver o resto da vida com a culpa pelos assassinatos. 

Entre 1946 e 1947, estima-se que os tokottai (carrascos da Shindo Renmei) tenham executado 23 pessoas e ferido outras 147. Após a prisão de Junji Kikawa, em 1946, o grupo manteve suas atividades, mas logo passou a enfraquecer, tendo muitos de seus membros presos, exilados ou até mesmo assassinados. Destinos esses compartilhados por Takahashi, que se entrega à polícia após perceber seus erros e por Watanabe, que por fim é assassinado.    

O fim desses eventos e o enfraquecimento da Shindo Renmei marcou, portanto, um gradual processo de reunificação da comunidade japonesa no Brasil. Com a retomada das relações diplomáticas e a criação de associações, como a Sociedade Paulista de Cultura Japonesa (Bunkyö), em 1955, os imigrantes puderam se preparar para os novos desafios pós-guerra, mas com maior união e solidariedade. 

Coronel Watanabe e o fotógrafo Takahashi (Interpretados por Eji Okuda e Tsuyoshi Ihara) em Corações Sujos.

REFERÊNCIAS:

KOJIMA, Lina. Migração repetitiva entre o Brasil e o Japão. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2009. 

MORAIS, Fernando. Corações Sujos. São Paulo: Companhia da Letras, 2000.

SAKURAI, Celia. Imigração tutelada: os japoneses no Brasil. 2000. 191 p. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, SP. 

SAKURAI, CÉLIA. Tensões dentro de um mesmo grupo: os japoneses do pós-guerra e os antigos imigrantes. XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, 2004.


  • Guilherme Praça
    Guilherme Praça

    "Mestre em História Politica pela UERJ, professor empenhado na luta por uma educação antirracista e, com a licença de João do Rio, um homus cinematographicus."


Guilherme Praça
Guilherme Praça

"Mestre em História Politica pela UERJ, professor empenhado na luta por uma educação antirracista e, com a licença de João do Rio, um homus cinematographicus."

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  • Marina Guimarães
    Marina Guimarães
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