Nova grade do Curso de Formação de Diplomatas do IRBr: o que mudou?

  • Clipping
    05/02/2019 . 10 min de leitura

Amigos do Clipping, iniciaram-se as aulas do Curso de Formação de Diplomatas no Instituto Rio Branco em 2019, e foram apresentadas mudanças na grade do Curso que merecem ser destacadas aqui no Blog.

Falamos sobre essas mudanças aqui neste post que ficou dividido assim:

Vamos ao post!

⚠️  ERRATA: As informações veiculadas neste post publicado originalmente no dia 5 de Fevereiro diziam respeito apenas à grade do primeiro semestre. A grade completa do currículo do IRBr, que havia sido publicada no Diário Oficial do dia 01 de Fevereiro, não foi levada em conta na elaboração da versão original deste artigo que, embora factualmente correta,  foi incompleta na apresentação das informações, gerando conclusões imprecisas. Mantivemos o texto original abaixo, com as devidas informações complementares abaixo.

1. O que é o Curso de Formação de Diplomatas

O Curso de Formação de Diplomatas é o curso oferecido pelo Instituto Rio Branco para os candidatos aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) e tem como objetivo

o estímulo do interesse pela profissão, a harmonização dos conhecimentos adquiridos no currículo do programa de formação com as necessidades da carreira diplomática e o desenvolvimento da capacidade crítica para a melhor compreensão das decisões e atitudes da política externa brasileira, consonante às normas de conduta e técnicas de gestão do Itamaraty.

2. Nova grade do Curso de Formação de Diplomatas

A grade do Curso de Formação de Diplomatas em 2019 passou por mudanças introduzidas na gestão da Diretora atual do Instituto Rio Branco, a Embaixadora Gisela Padovan.

O programa do primeiro semestre segue abaixo:

As disciplinas obrigatórias do programa atual que foram mantidas e coincidem com as do programa antigo são:

  • Política Internacional (Embaixador Achilles Zaluar);
  • Linguagem Diplomática (Conselheiro Gustavo de Sá Barbosa);
  • Organizações Econômicas Internacionais e Contenciosos (Conselheiro Marcus Vinícius);
  • Economia (Prof. José Carlos Oliveira);
  • Direito Internacional Público (Prof. George Galindo);
  • Inglês (Sarah Walker, Susan Casement e Peter Leamy);
  • Francês (Olivier Chopart, Jérôme Bertheau e Maria Antonietta);
  • Espanhol (Pedro Delgado, Dulce Andriguetto e Maria del Mar);

As disciplinas que não constam mais no primeiro semestre novo programa são*:

  • Técnicas de Negociação;
  • Pensamento Diplomático Brasileiro;
  • História da Política Externa Brasileira;
  • Defesa, Segurança e Política Externa Brasileira;
  • Planejamento Diplomático;

⚠️ *Atualização do post feita em 8 de Fevereiro: Embora não estejam no primeiro semestre essas disciplinas ainda constam no programa no segundo semestre. Segue a listagem completa dos Professores e das Disciplinas publicada no Diário Oficial no dia 1 de Fevereiro .

Novas disciplinas que foram adicionadas ao programa e que não existiam no programa antigo:

  • Clássicos I (Ministro Fábio Marzano);
  • Administração Pública ( Prof. Francisco Gaetani);

As línguas eletivas, que devem ser escolhidas uma entre três pelos candidatos, permanecem:

  • Árabe (Abdulbari Nasser);
  • Chinês (Zhang Honghua);
  • Russo (Dina Chetvertak);

A disciplina Línguas Portuguesa e Cultura Brasileira  é oferecida apenas para os alunos estrangeiros intercambistas no Instituto Rio Branco.

Analisamos as alterações no próximo tópico…

3. Breves considerações sobre mudanças

O Clipping tece abaixo 4 considerações sobre as mudanças na grade do programa.

    3.1 Um programa mais enxuto

Uma primeira mudança que se nota é a redução do número de matérias no Curso de Formação de Diplomatas.

O programa atual, com 11 matérias, é mais enxuto do que o programa antigo, que contava com 14 matérias.De forma geral, essa é uma mudança que tende a ser bem acolhida pelos jovens diplomatas. Afinal, quem passou recentemente pelos programas anteriores sabe bem do desafio que é acumular o estudo de nada menos do que 14 matérias.

Vale lembrar que das várias críticas, boa parte delas construtivas, que o Curso de Formação de Diplomatas vinha recebendo ao longo dos últimos anos, uma delas era justamente o número de disciplinas por semestre, que dificultava, na prática, o aprofundamento em certos temas ou atividade práticas de fundamental importância no início da carreira.

    3.2 Descontinuação de disciplinas?

A eventual descontinuação de matérias como História da Política Externa Brasileira, de certa forma, evitaria que conteúdos já vistos à exaustão pelos aprovados no estudo para o CACD fossem repetidos.

Não se sabe de História da Política Externa Brasileira foi tirada do programa ou jogada para o segundo semestre. *Ainda assim, nota-se que há no novo programa uma tentativa de evitar ou minimizar sobreposição de contéudos.

⚠️ *Atualização do post feita em 8 de Fevereiro: De acordo com a Portaria  publicada no Diário Oficial no dia 01 de Fevereiro, História da Política Externa Brasileira foi fundida com a disciplina Pensamento Diplomático, dando origem à disciplina História e Pensamento Diplomático Brasileiro que será lecionada pelo Prof Hélio Franchini Neto no segundo semestre.

Chover no molhado. Esse era considerado um dos problemas do curso oferecido pelo IRBr. Esse problema era constantemente levantado por alunos do IRBr e discutido abertamente ou em off. Há um excelente artigo de Matias Spekor, chamado “Educação de Diplomatas” (2012),  com críticas construtivas ao programa de formação de diplomatas brasileiro.  Vale a leitura para entender mais a fundo o debate sobre o curso de formação.

Por outro lado, é importante reconhecer que a proposta pedagógica da disciplina História da Política Externa Brasileira nos programas nunca foi de repetir o conteúdo que o candidato aprende ao longo dos estudos para o CACD. Pelo contrário, essa disciplinas concilia,  segundo o Programa de Trabalho do Curso de Formação de 2018, conteúdo teórico com orientação profissionalizante por diplomatas com sólida experiência na carreira.

Falando na dimensão profissionalizante, outras disciplinas relacionadas estritamente com a prática diplomática como  Técnicas de Negociação e Planejamento Diplomático  ficaram de fora do primeiro semestre. Novamente: não se sabe se o fato dessas disciplinas não constarem no primeiro semestre do Curso de Formação de Diplomatas significa que foram “jogadas para frente” no programa ou se foram descontinuadas e ficarão de fora.*

⚠️ *Atualização do post feita em 8 de Fevereiro: De acordo com a Portaria 1 de 2019,  publicada no Diário Oficial do dia 01 de Fevereiro, as disciplinas Técnicas de Negociação e Planejamento Diplomático constam no programa, embora não estejam na grade do primeiro semestre.  O Ministro Kenneth Félix Haczynski da Nóbrega lecionará Técnicas de Negociação e o Embaixador Alberto Luiz Pinto Coelho Fonseca, Planejamento Diplomático.

    3.3 Novos professores, novas ideias

Sobre novidades em relação às matérias e aos professores…

Uma das disciplina mais relevantes, Política Internacional, ficará a cargo do Embaixador Achilles Zaluar, que se destacou recentemente pela sua atuação na Encarregatura de Negócios permanente em Damasco, na Síria. A Encarregatura em Damasco é consideradada um dos postos mais desafiadores do Itamaraty. O principal problema era a escassez de informações ocasionada pela fraca presença da mídia ocidental na região, o que demandava um criterioso e criativo trabalho do Embaixador e seus colaboradores na reunião de informações junto a diversas fontes para subsidiar o processo de tomada de decisões na questão síria. Curiosamente, esse trabalho era feito pelo predecessor nesse posto em Damasco, o Embaixador José Estanislau, que deixou o mesmo posto na Síria para ser lotado diretamente no Instituto Rio Branco, no cargo de Diretor Geral (veja entrevista do Embaixador José Estanislau ao Clipping). Além da passagem de 3 anos pela Síria, vale destacar a erudição do Embaixador Zaluar, sobretudo em temas como religião, filosofia e história medieval e seu interesse pela obra de pensadores de perfil conservador e ainda pouco conhecidos no Brasil, como François-René de Chateaubriand.

💡 

François-René de Chateaubriand foi um escritor e diplomata francês que se imortalizou pela defesa da fé católica à época de Revolução Francesa em obras como O Gênio do Cristianismo (1802). Inspirado por suas viagens aos EUA, Chateaubriand escreveu o romance Atala (1802), onde um jovem francês se casa com uma índia norte-americana. À época, o romance causou controvérsia por retratar índios com simpatia e propagar o conceito do “bom selvagem”. No Brasil, as obras de René de Chateaubriand teriam influenciado os romances indigenistas de José de Alencar como O Guarani e Iracema, a partir da década de 1850. O brasileiro Assis Chateaubriand (Chatô) não era parente de René Chateaubriand. A origem do nome de família Chateaubriand no Brasil é ligada ao fato do pai de Chatô ter sido um admirador da obra de René de Chateaubriand.

A nova disciplina Clássicos I consistirá no debate de temas filosóficos a partir da apresentação de obras clássicas da filosofia ocidental pelos alunos, seguindo essa dinâmica de seminários.

Espera-se que os alunos apresentem nesse módulo I debates sobre as obras de Platão a Kant. No módulo II, no próximo semestre, o programa possivelmente continuará cronologicamente até os dias atuais. O Professor encarregado por conduzir essa disciplina é o Ministro Fábio Marzano, Doutor em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Paris – Centre Sevrès, onde recentemente apresentou sua tese Louis Lavelle, métaphysicien de l’amour : liberté et valeur sur le chemin de l’intimité spirituelle.

Para que não fiquem impressões equivocadas sobre a inserção da disciplina Clássicos I, é importante fazer 2 ressalvas.

Em primeiro lugar, não há que se dizer que o novo programa e suas diretrizes priorizam teoria em detrimento da prática. Pelo contrário, a grade das primeiras aulas sinalizam a priorização de uma abordagem profissionalizante com maior ênfase em atividades práticas em uma grade mais enxuta, que possibilite que o aluno absorva de forma otimizada a bagagem operacional necessária ao métier diplomático. Em segundo lugar, boa parte do programa antigo foi mantido e, portanto, não houve uma mudança radical no curso. O exemplo da disciplina Organizações Econômicas Internacionais e Contenciosos demonstra bem isso…

A manutenção do Conselheiro Marcus Vinícius Ramalho na disciplina Organizações Econômicas Internacionais e Contenciosos foi bastante bem recebida. O conhecimento aprofundado repassado aos alunos sobre os meandros técnicos da prática diplomática no âmbito da OMC foi identificado como um dos pontos altos do curso de formação no ano passado. O diplomata está à frente de um dos postos chaves do MRE –  a Divisão de Contenciosos Comerciais do Itamaraty – e possui perfil reconhecidamente técnico, tendo se formado em Engenheiro no ITA e passado pela EMBRAER, onde teve atuação de destaque.

Resumindo: o alinhamento às novas ideias e novas às novas ênfases propostas pelo novo Chanceler podem, sim,  ser notados nas alterações do programa. Por outro lado, pode ser também ser notado o pragmatismo na continuidade de boa parte do programa do Curso de Formação de Diplomatas, sobretudo no que se refere aos idiomas…

    3.4 Idiomas

No que se refere a idiomas, o programa atual segue à risca a cartilha do programa antigo de idiomas, cuja excelência há muito já era reconhecida dentro e fora do Itamaraty.

Foi mantido o corpo docente formado por três professores de cada língua. Essa decisão estratégica permite que as turmas continuem sendo subdivididas em turmas menores de acordo com o nível de cada aluno, o que viabiliza uma abordagem pedagógica adaptada aos diferentes níveis.

O Curso de Formação oferece 6 línguas. Três são obrigatórias, como é o caso do Inglês, Francês e Espanhol. Além desses idiomas obrigatórios, os alunos escolhem uma dentre as três eletivas: Russo, Árabe ou Chinês.

Ah, Clipping, por que o IRBr priorizou Russo, Árabe ou Chinês e não outras línguas? 

Simples: porque esses são idiomas oficiais da ONU…

Ao final da passagem pelo IRBr é esperado dos alunos tenham contato em maior ou maior nível com todos os idiomas oficiais da ONU: Inglês, Francês, Espanhol, Árabe, Chinês e Russo.

4. Conclusões e perguntas:

Antes que esse post acabe, é preciso responder algumas perguntas que eventualmente surgirão:

Clipping, será necessário agora estudar Filosofia ou alguma outra matéria para o CACD por agora?

Não.

É possível que venham mudanças no CACD 2019 (falamos sobre essas possibilidades aqui) . No entanto, o programa do Curso de Formação de Diplomatas nunca foi nem deve ser um parâmetro para Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).

Resumindo: não seria pragmático mudanças de rota na preparação pelo momento.

A própria análise das mudanças da grade do Curso de Formação de Diplomatas leva a concluir que podemos esperar mais continuidades do que mudanças.

Sigamos em frente: Ceteris paribus  e keep clipping!

Acha que esse artigo pode ser mais completo em algum ponto? Ficou uma dúvida? Ou sugestão? Deixa aí um comment abaixo! 🗣👇


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