Rômulo Neves fala ao Clipping CACD

Ele não é exatamente o primeiro diplomata a ter participado de um reality show [Falamos aqui sobre o caso de outro diplomata participante de reality show…], mas sua participação meses atrás no BBB levantou discussões sobre os limites entre vida pública e privada no Itamaraty, atividade política e diplomacia e outras questões. O convidado de hoje é o Rômulo Neves. Dá uma espiada no bate-papo abaixo:

 

Exatamente 1 mês após sua eliminação do BBB ,  o Embaixador Sérgio Danese disse o seguinte no discurso da cerimônia de formatura do IRBr:

“Vocês passaram a fazer parte de uma instituição que lhes dará uma identidade única – “sou diplomata do Brasil” –, uma identidade que livremente escolheram num universo de inúmeras possibilidades. (…) A partir de agora, vocês deixam de ser individualidades, apenas, para serem também uma encarnação do Estado brasileiro, onde quer que estejam, o que quer que façam, na vida pública como na vida privada.“

Essa visão do Embaixador Danese sobre a carreira diplomática não te coloca no paredão?

Muito antes de participar do BBB, tenho uma atuação diversificada, na literatura, na docência, no rádio, na política interna, no esporte. A regra que sempre aplico a mim mesmo para manter a linha é não tratar de temas atuais de política externa publicamente fora do Itamaraty. Assim, realmente, acho que mesmo fora do Itamaraty não dá para tratar do objeto central da instituição. Isso não significa, nem de longe, que perdi minha individualidade. Aliás, a manutenção dessa individualidade é importante até para uma boa atuação diplomática.

 

Todo diplomata já foi candidato um dia. Repetimos a você, que passou no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) de 2005,  a mesma pergunta que fizemos quando entrevistamos Diretor-Geral do IRBr: que lembranças, traumas ou anedotas guarda daquele movimentado contexto de preparação para o CACD?

Quando me inscrevi no concurso de 2005, tinha dois empregos. Trabalhava das 8h às 20h. E frequentava um cursinho aos sábados, um pouco a contragosto. Fiz mais por insistência da minha esposa à época. Apenas após o resultado das duas fases iniciais, decidi tirar uma licença dos dois empregos e cobrir o restante da literatura que faltava. E faltava muita coisa. Assim, nos dois meses seguintes, tempo do intervalo entre o resultado da segunda fase e o final do concurso, li de 6h30 da manhã às 23h30, com pouquíssimos intervalos.

 

Quando a Ana Maria Braga te questionou sobre o que levaria um diplomata a entrar no BBB, você mencionou que era "a oportunidade única de falar 1 minuto por semana para uma audiência de 50 milhões de pessoas". Semanas após essa declaração, você anunciou que se candidataria a deputado federal. Ultimamente, temos tido políticos à frente do Itamaraty e também diplomatas à frente de cargos políticos. Podemos dizer que o diplomata no cargo político traz para atividade política uma linguagem, um estilo e uma perspectiva diferente? 

Certamente. O diplomata leva á arena política um treinamento para o diálogo. Mas não é possível dizer de antemão se isso é bom ou ruim para sua atividade política, porque esse ambiente é uma selva e às vezes dialogar abertamente é apenas a terceira ou quarta prioridade ou opção. Mas essa minha opção é reavaliada cotidianamente.

 

Você já serviu na Venezuela, Suriname e Etiópia. Tanto o Embaixador Sérgio Danese, no discurso acima, quanto o Embaixador, José Estanislau, em uma entrevista que concedeu ao Clipping, destacaram a importância de que quem ingressa na carreira hoje esteja disposto a servir em postos C e D, considerados difíceis. Há quem diga que esse chamado que o Itamaraty tem feito aos jovens diplomatas a abrirem seus horizontes de escolhas nas remoções é uma resposta à ampliação dos quadros e ao afunilamento das promoções na carreira.  Quais são na sua perspectiva, os desafios e as demandas mais urgentes com relação ao plano de carreira de diplomatas?

São dois temas: o que os diplomatas podem oferecer à instituição e o que a instituição pode oferecer aos diplomatas. Tudo isso, sob o manto do interesse nacional, do país, dos cidadãos, que, em última instância garantem o orçamento do Ministério com o pagamento dos impostos. Em relação ao primeiro, acho que o mais importante é a abertura para a inovação, e isso inclui também novas perspectivas em relação às remoções ao exterior. Se os novos diplomatas chegarem ao Itamaraty imaginando e, pior, desejando, a realidade de um passado mais ou menos distante, ficarão frustrados e produzirão pouco.

Da parte do Ministério, acho que os principais pontos são ligados ao planejamento da carreira do diplomata. Por exemplo, sou a favor de algumas medidas administrativas para lotarmos postos C e D, mais especificamente África e Ásia. Uma obrigação de cumprir três anos em D ao longo da carreira para se tornar Ministro de Primeira Classe, sem indicação de quando, atende aos interesses da Administração, mas também facilita para o diplomata planejar sua vida. Planos de remoção definidos com antecedência, com base em elementos claros e transparentes, igualmente. Porque as pessoas precisam planejar suas vidas, escola dos filhos, vida profissional do cônjuge, saúde de parentes, etc, etc. Assim, em síntese, acho que a principal demanda do diplomata e dos funcionários do SEB é a possibilidade de se planejar, temporal e financeiramente. Por exemplo, o auxílio aluguel é relativamente alto – ainda que tenha atrasado em meses passados, hoje não sei – mas não há auxílio-educação. Isso gera um tipo de incerteza que não é fácil de lidar.

 

Antes de ingressar na diplomacia, você já escrevia e, recentemente, você reuniu seus poemas no recém lançado Terminal. Em alguns capítulos da obra, você dialoga com alguns poetas quer tiveram influência sobre você. Um deles é Drummond, que além de poeta era servidor público. Vários outros poetas e escritores brasileiros tem um pé no serviço público e outro na literatura desde Machado, passando por Lima Barreto, Euclides, a lista é imensa… Arriscaria tentar explicar essa relação histórica entre serviço público e literatura no Brasil? 

O principal deles, na minha lista, faltou aí na sua, é o Guimarães Rosa. Há várias explicações. Uma delas é o processo de seleção dos servidores, que atrai, em razão dos altos salários, e aprova, em razão da competição dos concurso públicos, candidatos que tem o costume e a obrigação de ler. E ler é o primeiro passo para o ato da escrita.

Outra razão dessa proximidade é a estabilidade, que permite ao servidor algum planejamento. Não é simples escrever sem saber qual será seu destino profissional. Mas acho que essa identidade não é exatamente verdadeira. Há muita produção, especialmente a mais contemporânea de pessoas que não tem ligação nenhuma com o funcionalismo.  

 

No BBB, você ficou 2 meses em “splendit isolation em relação ao turbilhão dos fatos na política nacional e internacional que rolavam aqui fora. Isso te credencia ao recorde mundial de diplomata que mais tempo ficou sem acesso ao clipping de notícias. Ao sair do BBB e fazer aquela atualização básica das notícias sobre o que rolou aqui fora, que reviravolta mais te surpreendeu?

A que mais me surpreendeu não ocorreu na diplomacia, mas no Judiciário. A morte do Teori Zavascki, para mim, foi um choque. 

 

Você já esteve a frente como chefe da divisão da Sociedade da Informação do Ministério das Relações Exteriores e você é considerado como um dos especialistas no Itamaraty em uma área de grande complexidade técnica, que é Governança da Internet.  O que está em jogo nessa questão? Que aspecto dessa agenda, que é tão ampla, vem tendo menos destaque do que merecia nas mídias?

Atualmente temos bastante gente capacitada para fazer esse debate. Eu, aliás, herdei várias linhas de ação do meu antecessor, o Ministro Everton Lucero, que fez sua tese de CAE especialmente sobre o tema, e trabalhei sob a batura do Embaixador Benedicto Fonseca. Os principais elementos em jogo nesse debate são a segurança dos dados, a liberdade de expressão na Rede e a autonomia dos países frente à teia da Internet. Mas, de uma forma ou de outra, o assunto ganhou o noticiário, especialmente com o Caso Snowden e a informação de que a comunicação da presidente do Brasil foi espionada.

O que estamos atrás, bem atrás mesmo, e que mereceria muito mais atenção não apenas do MRE, mas de todo o Governo, é a inovação tecnológica – na robótica, nas comunicações, na nanotecnologia, na biotecnologia. Em relação a isso, acho que chegamos a um ponto sem volta e só conseguiremos entrar novamente em alguma competição internacional quando dermos um salto. O problema é que um salto é, na verdade, uma sucessão de pequenos avanços pontuais, dentro de um ambiente propício. Não sei se temos algum desses elementos para fazer esse salto tecnológico.

 

Para fechar a entrevista aquele bate-bola clássico. Topa?

Bora.

Um artista brasileiro:

O pintor Alex Flemming

Um diplomata (Barão não vale):

Vou citar três, sob pena de ser injusto, por motivos totalmente diferentes, os Embaixadores Marcos Caramuru, Eduardo Saboia e Benedicto Fonseca

Um filme de terror:

Serve suspense? Nesse caso: Os Suspeitos, com Kevin Spacey

Uma atleta:

Mark Allen, hexacampeão do Ironman do Hawai

Um poeta:

Ferreira Gullar, o último a entrar no panteão

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