Depoimento sobre estágio na DELBRASONU

 

O que é o Programa de Capacitação Acadêmica da DELBRASONU

Por Laura Lima

***O texto a seguir foi escrito voluntariamente por Laura Lima, ex-participante do programa. As opiniões e informações fornecidas não vinculam os organizadores do programa ou a Missão Permanente do Brasil junto à ONU, tratam-se de depoimento pessoal. ***

Trata-se de um programa de três meses, oferecido em três diferentes ciclos do ano, pela Missão do Brasil junto à Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York, chamada pelo Itamaraty de DELBRASONU (abreviação para Delegação Brasileira junto à ONU).

A DELBRASONU representa o país junto às Nações Unidas, incluindo a Assembléia Geral, Conselho de Segurança (CSNU), Conselho Econômico e Social (ECOSOC), entre outros e acompanha as agendas internacionais defendendo a posição brasileira. Cada Estado-membro da ONU possui uma Representação ou uma Missão Permanente junto à ONU e a maioria fica na mesma região da cidade.

O programa não é remunerado, cabendo ao candidato arcar integralmente com os seus custos de estadia e moradia em Nova York. Apesar de ser voluntário o processo de seleção é concorrido e atrai candidatos muito qualificados e com múltiplas experiências internacionais.

  Sobre oportunidades na ONU

Alguns colaboradores do Blog já escreveram por aqui sobre estágios e carreiras na ONU. Veja também os artigos abaixo:

➡️ Lídia Dreher fala sobre o estágio do MRE em Genebra

➡️ Analice fala sobre programa de jovens profissionais da ONU

➡️ Caroline Bach fala sobre como conseguir um emprego na ONU 

 

 

 

 

São oferecidas em média 10 vagas por ciclo, divididas pelas áreas de direitos humanos, desenvolvimento sustentável, assuntos econômicos e financeiros, paz e segurança, direito internacional, desarmamento e diplomacia pública, em alinhamento com as diferentes comissões da própria ONU.

Este é chamado de “Programa de Capacitação acadêmica”, mas, na verdade, é uma espécie de estágio, em que o participante acompanha os trabalhos regulares da Missão na área de concentração, sob a supervisão de um ou mais diplomatas brasileiros. Entre as atividades desenvolvidas no programa estão: participar de reuniões na ONU e outras missões, acompanhar diplomatas em eventos, realizar pesquisas, traduzir textos, realizar atividades administrativas como preparação de telegramas e emails, auxiliar delegações do Brasil em eventos na ONU, fazer relatórios, etc.

Um ponto forte do programa é o cuidado com a capacitação dos participantes, através de seminários oferecidos pelos diplomatas sobre seus temas de atuação e outros temas relevantes (Além de dicas, depoimentos, palestras sobre como se prepararam para o CACD e como é a vida deles em diferentes postos). Os seminários acontecem semanalmente e no meu ciclo cobrira temas como: A questão palestina, MINUSTAH, Diplomacia pública, reforma do Conselho de Segurança, Desarmamento, Agenda 2030, etc.

Podem participar do programa, estudantes de graduação ou pós-graduação, além de recém-formados na área das ciências sociais. No meu ciclo havia participantes formados em RI, Direito e Psicologia. Entre eles tinham estudantes de mestrado, no Brasil ou no exterior, candidatos ao CACD, alguns queriam trabalhar na ONU ou em agências internacionais como o ACNUR e outros apenas conhecer melhor o ambiente internacional. Não há um perfil homogêneo dos participantes.

Na Missão do Brasil estão alocados cerca de 25 diplomatas, número alto comparado a outras missões. Antigamente a missão ficava no Empire State Building ( <3) mas já há alguns anos ocupa dois andares de um prédio a quatro quadras da ONU.

Como é o processo seletivo?

 

 

DELBRASONU

 

O processo seletivo é divulgado na página do facebook da missão do Brasil na ONU e no site oficial do Itamaraty.

As vagas são abertas três vezes ao ano para cada um dos seguintes ciclos:

  • Fevereiro a abril (três meses); – É nesse ciclo que acontece a CSW!

  • Maio a julho (três meses); – Possibilita viver o verão de Nova York e escapar do frio!

  • Setembro a dezembro (quatro meses) – Dizem que é o melhor ciclo já que abrange a Reunião da Assembleia Geral em setembro.

Para conhecer as regras de participação, é só clicar do último programa basta clica neste link

Requisitos:

  • Ser Brasileiro
  • Ter fluência em inglês; *fluência em outros idiomas oficiais das Nações Unidas será considerada positivamente.
  • Dedicação exclusiva durante a duração do programa (Carga horária de 8 horas diárias + 2 horas de almoço).

Para se inscrever é necessário apresentar por email:

  • Curriculum Vitae (sem foto)
  • Carta de motivação;
  • Carta de recomendação de professor ou empregador.

Os candidatos classificados para a fase final do processo de seleção serão entrevistados por telefone, inclusive aqueles que residam nos Estados Unidos.

Os documentos podem ser redigidos em português e/ou inglês. É muito importante que as cartas estejam devidamente assinadas (digitalizar a versão assinada) e com papel timbrado do professor ou empregador.

Quais são os gastos?

Os valores gastos com alimentação e lazer variam muito de pessoa para pessoa e quanto a transporte a melhor opção é comprar o passe de transporte público ilimitado mensal por aproximadamente 120 dólares. Além de passagem aérea (+- 2500 Reais) e seguro de viagem e saúde (+- 300 US$), o maior custo é referente ao aluguel.

A questão imobiliária em Nova York é problemática e o custo de apenas um quarto em Manhattan pode variar entre 700 e 1200 dólares.  A tarefa de conseguir moradia pode dar muita dor de cabeça, e golpes imobiliários em NY são reais! Para evitar problemas eu recomendo:

  • Jamais fazer qualquer depósito antes de estar morando no apartamento (a não ser que seja um hotel, alojamento ou Airbnb com garantia de devolução do dinheiro);
  • Desconfiar de qualquer oferta que “pareça boa demais para ser verdade”;
  • Morar uma semana em um hotel/hostel se for preciso até conseguir visitar pessoalmente os apartamentos antes de mudar;
  • Dar preferência para “repúblicas” onde já há pessoas morando e responsáveis pelo contrato.

Vale a pena?

Acredito que sim, desde que a pessoa tenha  condições de arcar com os custos sem se prejudicar no longo prazo e principalmente para aqueles que sonham em ser diplomatas e querem saber melhor como funciona o dia a dia do trabalho deles antes de se dedicar exclusivamente ao concurso (pelo menos em uma missão, já que o trabalho em embaixadas e consulados é bem diferente).

O programa vale muito a pena pelas oportunidades únicas que oferece: conviver de perto com o trabalho do Itamaraty na missão,   ter acesso ao prédio e a reuniões da ONU com um crachá de diplomata sentando às vezes em frente à plaquinha do Brasil, diplomatas brasileiros negociando resoluções e acordos com potencial de impactar pessoas no mundo inteiro.

Para mim, foi interessante poder observar de perto a posição brasileira e me conectar com as inovações e avanços mais recentes nas discussões da ONU sobre temas importantes de políticas públicas e de direito internacional. Além disso, os seminários dos secretários sobre seus temas de atuação e outros temas relevantes foram essenciais para melhorar minha compreensão sobre política externa (aprendi mais com eles do que com muitas matérias na universidade).

O principal resultado atingido por mim nessa experiência foi me preparar melhor para tomar decisões mais esclarecidas sobre prestar ou não o concurso de admissão à carreira diplomática e buscar ou não participar de programas e processos seletivos da própria ONU no futuro.

O programa abre portas para outros trabalhos remunerados?

Quando embarquei para NY pensava que o programa abriria diretamente portas para emendar em outro trabalho remunerado nos EUA. Rapidamente percebi que isso não era um efeito frequente. Não é possível continuar na missão de forma remunerada, afinal o ingresso no MRE se dá através de concurso público. Por sua vez,  os melhores cargos iniciais na ONU são distribuídos através do YPP e outras boas vagas em agências do sistema ONU em NY ou Washington são preenchidas geralmente através de processos seletivos complexos e com lista de espera, com prazos e mecanismos nem sempre coincidentes com o período do programa. (No meu ciclo participamos de palestras e treinamentos oferecidos por staff da ONU sobre o processo de “Roster" e YPP,que  me ajudaram muito na preparação para outros processos seletivos).

Geralmente, as vagas remuneradas do sistema ONU sem processo seletivo, são oferecidas para quem já possui visto para trabalhar e/ou estudar nos EUA e já mora lá. O que acontece com certa facilidade após o tempo na missão é conseguir um estágio também voluntário na ONU ou agências como UNICEF.

Entretanto, continuar em NYC em mais um estágio voluntário, além do alto custo adicional, gera a necessidade de um novo visto. Isso porque para participar do Programa de capacitação o candidato aprovado(a não ser que já viva nos EUA com visto de estudante ou de trabalho). tira um visto G2(diplomático) no Brasil com o apoio do MRE (sem custo), e deve entrar nos EUA necessariamente com esse visto que só é válido no período de duração do programa.

Cada caso é um caso e cada pessoa tem um potencial e capacidade de networking próprios que podem, quem sabe, abrir portas diretamente após essa estadia em NYC, mas criar essa expectativa pode gerar frustrações. Independentemente dos efeitos diretos, vejo esse programa na missão como um investimento que pode abrir sim portas para outros trabalhos no curto e longo prazo, mesmo que indiretamente.

Eu, por exemplo, fui aprovada em um processo seletivo de trainee enquanto estagiava na missão e acabei sendo alocada em uma vaga que lida com assuntos internacionais, tenho certeza que o programa de capacitação foi um diferencial no meu curriculum para conseguir a vaga que queria.

Fui selecionado, e agora? alguma dica para otimizar o aproveitamento do progama?

Primeiramente Parabéns! Minhas dicas são:

  1. Não Desperdiçar tempo: Ir a Side Events no seu horário do almoço, pedir seu diplomata para te liberar para ir a reuniões de outras comissoes que te interessem particularmente se sua pauta estiver tranquila, tentar fazer amizade com estagiários da ONU e de outras missões, ir aos Happy hours no Delegates Lounge todas as sextas mesmo que a anterior tenha sido vazia, ir aos treinamentos oferecidos pela biblioteca na ONU (e pegar os certificados) e procurar treinamentos grátis oferecidos pelas plataformas da UNITAR.

  2. Aproveitar a ONU: Os participantes do programa recebem um crachá que dá acesso a quase tudo dentro da ONU para conseguirem acompanhar seus diplomatas, e isso é uma oportunidade única na vida, que nem estagiários da ONU ou de agências têm você poderá entrar em quase todas as reuniões e espaços. Nova York vai estar sempre lá quando você quiser voltar e qualquer um pode conhecer, mas a ONU é um universo a parte, enorme e exclusivo que deve ser desbravado o máximo possível!

  3. Quanto mais melhor: Caso você possua condições financeiras de renovar seu vínculo com a missão e ficar dois ciclos eu recomendo fazê-lo. Ao final de três meses finalmente entende-se as dinâmicas das tarefas, mas aí já é hora de partir. Com mais três meses acredito que é possível realmente aprofundar os conhecimentos sobre a atuação de ser supervisor e contribuir de forma mais qualificada para o trabalho da missão, aumentando o valor da experiência.

  4. Ter uma boa relação com seus diplomatas supervisores: Ser pró ativo, não esperar que eles se abram para você logo no início ou te peçam ajuda todo o tempo pois eles provavelmente são muito competentes e dão conta do próprio trabalho sozinhos (e de forma rápida). Ganhar a confiança se ser aberto e bem disposto sempre, as tarefas mais simples se feitas com zelo podem fazê-los confiar em você e te dar cada vez mais atividades relevantes, com isso além de aprender mais você pode ter a chance de participar de mais reuniões e negociações interessantes os acompanhando. Eu construí uma relação boa e próxima  com meu supervisor e isso impactou positivamente meu tempo na missão e minhas escolhas profissionais.

Algo mais?

 

 

Depoimento de Laura Lima

 

Esse programa é uma oportunidade única de Networking então eu recomendo ter um Business card pessoal para trocar com as pessoas que conhecer, pois, nunca sabe se um dia será surpreendido com um convite para uma entrevista.

É bom levar um laptop caso tenha que tomar notas de forma mais efetiva ou resolver algo de última hora, mas a ONU tem impressoras e computadores disponíveis tanto na biblioteca quanto no prédio para casos de emergência e você provavelmente terá seu próprio computador de mesa na missão.

Apesar do ambiente multicultural e aberto da ONU há sim liturgias e formalidades por lá e considero importante respeitá-las, afinal, ao vestir o crachá da missão você a está representando. Roupas sóbrias e sociais me parecem adequadas (não usei salto) e acredito que tentar não destoar da forma como seus supervisores se vestem é um bom parâmetro já que na maioria das vezes você vai acompanhá-los na ONU.

**Laura Lima é de Carangola, Minas Gerais. Formou-se em Direito pela UFMG e atualmente é trainee Vetor Brasil de Gestão Pública no Maranhão.

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Confira o depoimento exclusivo de uma pessoa que trabalhou dentro da DELBRASONU. Se prepare para o CACD, clique aqui!
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