Depoimento sobre estágio no MRE: Conhecendo a rotina dos diplomatas na prática –

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Amigos do Clipping CACD, é com satisfação que compartilho com vocês um pouco da minha experiência no Programa de Formação Complementar da DELBRASGEN, em Genebra.

O que é o Programa de Formação Complementar da DELBRASGEN?

*por Lídia Dreher

Trata-se de um programa de três meses, oferecido três vezes ao ano, pela Missão Permanente do Brasil junto à Organização das Nações Unidas e demais Organismos Internacionais em Genebra (DELBRASGEN). No PFC, o participante assiste a alguns seminários na Missão e em outras organizações, faz visitas a alguns dos organismos internacionais e exerce funções de auxílio aos diplomatas, como se fosse um estágio, mas com a diferença de que as pessoas selecionadas, em geral, já são formadas e têm alguma experiência profissional. Em regra, não há ajuda de custo, devendo o participante arcar com todas as despesas. Entre as atividades desenvolvidas no programa, estão: participar de reuniões, acompanhar diplomatas em diversos eventos, realizar pesquisas, traduzir textos, realizar atividades administrativas e burocráticas, guiar delegações do Brasil pelas organizações internacionais e fazer relatórios – muitos relatórios!

Como é o processo seletivo?

Cada seleção para o PFC é regida por seu respectivo edital, que pode ser conferido no site da Missão  Brasileira em Genebra. Qualquer pessoa com ensino superior pode participar, desde que passe no processo seletivo, devendo apresentar, na candidatura,

  • currículos em português e inglês;
  • carta de motivação;
  • carta de recomendação.

Após, os pré-selecionados realizam uma prova online e discursiva sobre política internacional, com questões em português e inglês. Passando nesta fase, por fim, os candidatos são entrevistados por telefone.

Algumas pessoas me perguntam se é muito difícil passar na seleção. Depende. Acho que não é difícil para quem tem facilidade em escrever em português e inglês. É muito importante também apresentar um bom currículo, uma boa carta de motivação e ótimas cartas de recomendações. Não sabe como fazer? Tem várias dicas na internet! Não sabe se ficou bom? Pergunte a opinião de seus amigos e professores!

Fui selecionado(a), e agora?

Parabéns! Agora começa aquela correria de procurar apartamento, fazer o visto, comprar as passagens, fazer o seguro-saúde, pensar no que levar na mala, liberar o cartão de crédito internacional, deixar uma procuração para a mãe, realizar um eventinho de despedida e tudo mais que aparecer em cima da hora (obrigada, Lei de Murphy). A parte mais difícil, definitivamente, é encontrar um lugar para ficar em Genebra. Isso é tão difícil e caro que muitas pessoas acabam morando na França, onde a oferta de quartos e dormitórios compartilhados é maior. Para ter uma noção, alguns colegas do PFC e eu tivemos que nos mudar umas três vezes durante os três meses que ficamos lá.

Polêmica: Quais são os gastos? Há bolsa? 

Genebra é uma das cidades mais caras do mundo e, apesar de ter havido previsão de bolsa no edital da seleção que eu participei, nenhum dos seis participantes obteve o benefício (deve ser a crise!). No entanto, esta prática não é exclusiva da Missão, pois é generalizada, existindo, atualmente, reiterados protestos de estagiários internacionais por um pagamento digno (quem aí se lembra daquele caso do australiano que acampou na frente da ONU por não poder pagar estadia? #PayYourInterns). Isso tudo, infelizmente, evidencia o quanto ingressar em uma carreira internacional é difícil, elitista e excludente. Assim, quem tem a oportunidade de ingressar em um programa, estágio ou voluntariado internacional deve reconhecer seus privilégios e ter consciência do que isso significa, além de ser grato por conseguir realizar o programa até o fim (apesar das inúmeras dificuldades pelas quais a família e o próprio participante enfrentam). Feita a crítica – que, repito, é uma prática generalizada -, esclareço que há maneiras de se economizar. É possível cozinhar em casa, conseguir dormitório estudantil (foyer) para morar, bem como comprar passe mensal de transporte público, que sai bem mais barato. Em vez de jantar fora, é possível fazer um picnic à beira no Lac Léman, nadar no lago de graça e aproveitar alguns eventos a céu aberto (no verão a cidade fica mais animada e democrática). Da mesma forma, em vez de fazer compras em supermercados em Genebra, é mais econômico ir a um Carrefour na França. Enfim, há formas de economizar e de não fazer da sua estada em Genebra o motivo da sua insolvência civil.

Tá, mas se é tão caro assim, por que participar do programa?

Porque há experiências que vão além da questão financeira e permanecem para a vida toda. Pessoalmente, eu estava super indecisa e desmotivada para estudar para o CACD, no ano passado, devido principalmente ao fato de nunca ter tido contato com qualquer diplomata, e eu vi o programa como uma oportunidade de acompanhar de perto a carreira pela qual me interesso. Pude participar de diversos eventos e negociações importantes, conhecer profissionais incríveis, aprender mais sobre a carreira diplomática e absorver várias dicas de quem já passou pelo concurso de admissão (as quais compartilho eventualmente no Instagram @ceacedista).

 

No período de abril a julho de 2017, presenciei a Revisão Periódica Universal do Brasil, 35ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, Assembleia Mundial da Saúde, Conferência Internacional do Trabalho, Pacto Global para Migrações e Refugiados, ECOSOC, conferências na área do desarmamento, reuniões sobre o meio ambiente, etc. Trabalhei com uma variedade de matérias, como a crise no Chifre da África; a situação do Iêmen, da Síria, da Palestina; a apatridia com base na discriminação de gênero; os direitos humanos das mulheres; o envolvimento de homens e meninos no combate à violência de gênero (#HeForShe); o banimento de minas terrestres e armas nucleares; mudança climática; questões laborais, como trabalho escravo e fuga de cérebros; temas ligados à saúde, como resistência microbiana, prevenção ao HIV, doenças transmissíveis e não transmissíveis; e muito mais.

Participar de todos estes eventos me fez ver o quanto o Brasil é reconhecido, respeitado e avançado em diversas áreas. Houve muitas vezes, em algumas sessões, que eu me perguntava: “é sério que os outros países ainda estão discutindo isso?”. Refiro-me a alguns Estados que discutiam se direito universal à saúde seria, realmente, um direito; outros alegavam que a educação sexual e reprodutiva de meninos e meninas somente estimularia a violência contra a mulher; alguns outros países não reconheciam o direito da mulher a ter nacionalidade própria (que é a maior causa de apatridia no mundo). Estas situações me fizeram entender um pouco mais sobre a importância e a representatividade do nosso país no sistema internacional e o trabalho desenvolvido pela diplomacia brasileira. Além disto, toda esta intensa experiência no Programa de Formação Complementar me serviu como um incentivo a seguir estudando para ingressar na carreira diplomática – e espero que este texto motive também vocês que estão estudando para o CACD!

 

 

 

 

 

 

 

Tchau, Sala XX! Você é tão linda! 😂 #SalledesDroitsdelHommeetdelAlliancedesCivilisations

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lidia-estagio-onuLídia Pereira Dreher é advogada, especializada em Direito Internacional e estuda para o CACD há 1 ano e posta sua rotina de estudos no perfil @ceacedista, no Insta