Jornada CACD | Ep. 01 – Raio X CACD

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    Clipping
    09/10/2020 . min de leitura

Não conseguiu acompanhar a conversa ao vivo? Está sem tempo, ou a conexão da internet está te deixando na mão? Não se preocupe, porque o Clipping transcreveu para você o bate-papo entre o Tanguy e o Romeu. 

No primeiro episódio do Jornada CACD, uma série de conversas voltada para pessoas que pretendem começar a estudar, ou que acabaram de iniciar a preparação para o concurso, o Tanguy e o Romeu fizeram um verdadeiro “Raio X” do CACD.

Eles abordaram as principais dúvidas de quem quer ser diplomata, mas que ainda não sabe exatamente como é esse processo.

Confere aí!

Veja como foi a conversa

Apresentação

Romeu Santos – Professor para candidatos do Concurso de Admissão à Carreira Diplomática desde 2007, e, atualmente, professor de Política Internacional do Clipping. Tanguy Baghdadi, o que mais a gente pode saber sobre você?

Tanguy Baghdadi – Obrigado pelo convite, é um prazer estar aqui. Sou professor de Política Internacional para o CACD desde 2007, de modo que peguei uma fase “meio analógica” de preparação, sem tanto acesso à internet, sem o Clipping para ajudar quem não morava nos grandes centros.

Eu sou do Rio de Janeiro, graduado e mestre em relações internacionais. Sou professor de cursos de relações internacionais aqui do Rio, tanto em graduação quanto em pós-graduação e em MBA.

Também sou coordenador da pós-graduação do próprio Clipping, em Estudos Diplomáticos. E tem o meu xodó, que faz parceria com o Clipping, o Petit Journal, que é um podcast em que falo sobre assuntos de política internacional “cabeludíssimos”, em cinco minutinhos.

O que é o CACD?

Romeu Santos – O Petit é o xodó de todo mundo que está estudando para o concurso e para todos que se interessam por política internacional de alguma forma.

Tanguy, deve ter quase 15 anos que você trabalha com CACD, preparando os candidatos para o CACD, como você explicaria para alguém que nunca ouviu falar no concurso o que exatamente é o CACD?

Para o que exatamente você está preparando essas pessoas?

Tanguy Baghdadi – Então, o CACD é algo único no mundo, Romeu. Tem poucos países que tem isso.

Numa fase em que a gente tem tantas críticas ao Brasil, esse é um dos elementos de orgulho que a gente tem de ter do país, porque poucos países fazem uma seleção de seus diplomatas da maneira como o Brasil faz.

Se você presta o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática, você está fazendo a única seleção possível para tornar-se um diplomata de carreira e ingressar no Ministério das Relações Exteriores.

É claro que, eventualmente, você pode ler no jornal que um presidente ou que um ex-presidente foi convidado para ser embaixador, mas são casos extremamente específicos. É raríssimo.

O Itamaraty é uma entrada única, todo mundo que é diplomata começou como CACDista, progredindo na carreira como Terceiro Secretário, Segundo Secretário, Primeiro Secretário, Conselheiro… até chegar ao posto de Embaixador.

Não tem outra entrada. Então, se você presta o CACD, você está postulando a uma vaga para a diplomacia brasileira, para ser um representante do Brasil no exterior, ou para ser um funcionário do Ministério das Relações Exteriores aqui no Brasil, dialogando o tempo todo com exterior.

É importante ressaltar que o diplomata nem sempre trabalha no exterior. Uma boa parte da carreira é feita em Brasília.

A carreira

Romeu Santos – Muita gente tem essa dúvida, se o diplomata está sempre no exterior, e não é bem isso. Ele pode estar lotado em Brasília, na Secretaria de Estado.

Ao mesmo tempo,  é difícil você ser um diplomata e não sair do Brasil em algum momento. Teoricamente, você vai ter de sair do Brasil, servir algum posto no exterior. Muita gente tem essa dúvida.

Tanguy Baghdadi – É esperado que você saia e, para você progredir na carreira, é normal que você tenha de passar algum tempo no exterior. Mas também é falsa essa ideia de que o diplomata passa a vida toda no exterior.

Tem inclusive um limite, somente pode passar 10 anos subsequentes fora. Parece um pouco mas, a cada 10 anos fora, necessariamente você tem de voltar, fazer um tipo de reciclagem no Brasil, fazer cursos, assumir funções no Brasil para poder sair mais uma vez.

Você falou da Secretaria de Estado, em Brasília. Lá, você tem uma quantidade inacreditável de tarefas.

O diplomata não é apenas o cara que lida com a parte bonita, com os banquetes. Você tem um cara que trabalha na assessoria de imprensa, atendendo telefone de outros órgãos do governo.

Tem o cerimonial, que, quando chegar uma visita do Secretário de Estado dos EUA, tem  de preparar uma forma correta de receber o cara. Há os diplomatas de ligação, o “DipLig”, que faz a ligação com delegações estrangeira. Tem o cara que trabalha na administração, fazendo com que o Itamaraty funcione. São funções muito diversas.

O que um diplomata faz? Ele faz um monte de coisa que faz com que, no fim das contas, a política externa brasileira avance, consiga realizar a representação brasileira no exterior.

Romeu Santos – É algo que chama muita atenção das pessoas, essa multiplicidade de temas que o diplomata acaba tendo de trabalhar. Isso permite fazer pequenas as alterações na sua carreira, evitando a rotina.

Há momentos em que o diplomata pode estar trabalhando com diplomacia cultural, em outro momento, com diplomacia comercial, com serviços consulares.

Tanguy, está bem claro que o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática é a única forma de ingressar na carreira diplomática de fato, não adianta ser sobrinho de fulano ou amigo de ciclano.

A única forma de tornar-se diplomata é sendo aprovado no concurso. Desde quando que esse concurso existe? Ele ocorre todos os anos? 

A história do CACD

Tanguy Baghdadi – Olha, o Instituto Rio Branco é um instituto de formação de diplomatas do Ministério das Relações Exteriores. Muitas vezes as pessoas confundem um pouco. Tem o Ministério das Relações Exteriores, chamado de Itamaraty.

Em 1945, o ex-presidente Getúlio Vargas criou o Instituto Rio Branco, que passou a funcionar de fato em 1946. De lá pra cá, a seleção é contínua, sempre teve seleção de diplomatas.

É claro que essa seleção variou enormemente, porque os tempos mudaram muito. A forma de fazer essa seleção sofreu alterações, mas, desde 1946, há seleção para diplomatas por meio de concursos públicos. Isso é impressionante.

Trata-se de uma grande tradição do funcionalismo público brasileiro, a busca pela seleção de bons diplomatas. A maneira como a gente conhece o concurso hoje deve vir da década de 1980, um concurso nesse formato.

A partir de 2003, o CACD passou por algumas alterações em termos do que era cobrado, como era cobrado. As fases passaram por mudanças, no sentido de dar uma democratizada no concurso.

E detalhe, Romeu, todo ano tem CACD. Se você faz concurso para o Senado, se você faz concurso para o Banco do Brasil, se você faz outros concursos, você fica esperando para saber se naquele ano vai ter concurso.

O CACD tem todo ano, há muito tempo.

Romeu Santos – Essa é uma vantagem enorme para quem estuda para o CACD. Quem estuda para outros concursos tem de lidar com a ansiedade, quando sai o edital, se vai ter concurso, ou não.

Ainda que o CACD tenha poucas vagas, tem prova todo ano. Todo ano você tem oportunidade de fazer a prova e de ser aprovado.

Tanguy, você estava falando que o concurso sofreu algumas alterações ao longo do tempo, mas que existe desde 1946. Isso ajuda a garantir essa profissionalização da carreira diplomática.

Mas você também disse que, de certa forma, o concurso segue o mesmo modelo desde 2003. Hoje, quais são as matérias que caem no CACD?

O que é cobrado no CACD

Tanguy Baghdadi – Então, tem algumas algumas áreas com habilidades diferentes para o CACD. Para quem ainda está na faculdade e ainda tem tempo, eu recomendo começar com o estudo de línguas. Elas são obrigatórias e têm um grau de cobrança bastante importante.

É necessário estudar a língua portuguesa, porque se você não for bom em português, a tendência é que você não consiga ser um bom diplomata. Também há inglês, francês e espanhol.

Português e inglês requerem um alto nível, de modo que é necessário um belíssimo nível de português e de inglês.

A partir daí a gente tem algumas outras, tem política internacional, que exige que você se mantenha atualizado com o que está acontecendo no mundo.

Também tem história, que concentra 22 questões de um total de 73. São 11 questões de história do Brasil e 11 de história mundial. Um peso enorme para história.

Também tem geografia, que dialoga bastante com política internacional, tem economia, direito interno e direito internacional público.

Romeu Santos – O concurso tem três fases e nem todas essas matérias são cobradas em todas as fases, não é? Por exemplo, na segunda fase temos português e inglês, enquanto, na terceira fase, não é cobrado história mundial, apenas história do Brasil.

Tanguy Baghdadi – Exatamente. Um dica para quem pensa em começar a estudar e quer entender isso melhor é ler o edital. Quando você quer começar a jogar um jogo, a primeira coisa a se fazer é ler as regras.

É importante saber as etapas, até para saber como organizar seu tempo e como priorizar o investimento. Espanhol e Francês, por exemplo, são cobrados apenas na terceira fase.

Na segunda fase, é essencial compreender que há redações de português e de inglês. Isso mudou nos últimos anos, tanto em relação à forma quanto em relação à pontuação. Dessa maneira, em um primeiro momento, a melhor forma de preparar-se é por meio da leitura do edital. 

Perfil dos diplomatas

Romeu Santos – Outra dúvida comum dos candidatos é a seguinte: precisa ter alguma graduação específica para ser diplomata?

Tanguy Baghdadi – Qualquer diploma de ensino superior reconhecido pelo MEC, de graduação ou de tecnólogo, é suficiente.

Há um boato de que você tem de ser formado em relações internacionais ou em direito para ser aprovado no concurso, porque a maior dos aprovados acaba vindo desses cursos.

Isso não quer dizer que quem não fez esses cursos não tem chances. É uma questão de estatística simples. Estatisticamente, as pessoas de relações internacionais e de direito fazem mais o concurso.

Se mais pessoas advindas desses cursos prestam o CACD, é normal que haja mais internacionalistas e mais bacharéis em direito entre os aprovados.

Agora, eu também posso passar uma hora aqui falando sobre casos curiosíssimos de pessoas de carreiras completamente diferentes que foram aprovadas.

Perdi a conta de quantos engenheiros, de quantos técnicos das mais diversas áreas, fisioterapeutas e músicos que eu vi serem aprovados no concurso.

Não é uma questão excludente. Você pode fazer qualquer graduação, que sempre terá chances de passar na prova. 

Nível da prova

Romeu Santos – Tanguy, já falamos sobre a história do CACD, sobre sua estrutura e as matérias cobradas, mas tem uma pergunta que ainda precisa ser respondida: o quão difícil realmente é a prova?

Tanguy Baghdadi – É um concurso difícil sim. Mas o mais importante é saber o porquê dessa dificuldade, o que realmente torna o CACD difícil.

Não significa que as perguntas são muito complexas. A dificuldade advém da quantidade de temas cobrados. Por exemplo, não há apenas um livro básico de política internacional que vai te preparar para a prova.

A maior dificuldade do concurso é que há diversas habilidades a serem desenvolvidas. Fazer uma redação de português é diferente de responder uma questão discursiva de política internacional.

É preciso ser sucinto, sem ser superficial. Tudo isso exige treino e esforço constante. Além disso, é necessário  estudar uma quantidade muita grande de temas.

É evidente que há questões difíceis, mas a quantidade de assuntos cobrados é que diferencia o CACD.     

Preparação

Romeu Santos – Na média, quanto tempo demora para ser aprovado? É possível passar no CACD com apenas seis meses de estudo?

Tanguy Baghdadi – Eu já vi de tudo, Romeu. Já vi candidatos aprovados com apenas seis meses de preparação, bem como já vi candidatos estudarem por dez anos e não passarem.

Tem de tudo e isso não depende da inteligência da pessoa. Esse tipo de relação não existe. Há uma série de fatores particulares e emocionais que influenciam isso, bem como a sorte.

O ponto não é quanto tempo você demora para passar, mas quanto tempo você demora para tornar-se competitivo. Quanto tempo demora até você ver que consegue brigar por uma vaga.

Quando você passa da prova objetiva e chega na segunda e na terceira fase, não há mais uma diferença muito grande entre os candidatos. Eu calculo que, depois de um ano e meio a dois anos, você se torna bastante competitivo.

O que o candidato tem de buscar não é saber quanto tempo vai demorar para ele ser aprovado, mas quanto tempo vai demorar para ele tornar-se competitivo. Você sabe que alcançou esse nível, quando passou por todos os temas do edital, quando não há nenhum assunto que é completamente novo.  

Romeu Santos – E sobre horas de estudo, Tanguy. Há uma quantidade certa de horas líquidas de estudo diário para ser aprovado? Eu consigo passar no concurso estudando duas ou quatro horas por dia, ou preciso estudar dez, doze horas todo dia?

Tanguy Baghdadi – Tem uma outra lenda nesse concurso que é a do candidato perfeito.

Esse seria um ciborgue, que come estudando, dorme poucas horas, não faz nada de lazer, estuda sábado e domingo e, todo dia, consegue fazer nove horas líquidas de estudo impecáveis.

Esse candidato não existe. É muito importante saber disso, que essa pessoa ideal não existe, porque muitos candidatos mantém esse ideal e se acabam frustrando, porque não conseguem alcançá-lo.

Mais importante do que a quantidade de horas é a qualidade do estudo. Três horas em concentração, com altos níveis de produtividade, podem ser melhores do que oito horas com baixo rendimento, sem concentração e com sono.

É preciso que o candidato compreenda quais condições possibilitam que ele tenha um estudo produtivo. Há quem estude melhor de manhã cedo e há quem se adapte melhor à madrugada.   

Importância do estudo de atualidades

Romeu Santos – No estudo de política internacional, qual é a importância da leitura diária de notícias, de saber o que está acontecendo no mundo? Na hora da prova, realmente faz diferença ter acompanhado o noticiário internacional?

Tanguy Baghdadi – Faz muito diferença, Romeu. faz uma diferença enorme. Nas provas dos últimos anos, diversas vezes temas de atualidades foram cobrados.

Isso premia o candidato que, todos os dias, abre o jornal, abre a seleção diária de notícias do Clipping e lê sobre o que está acontecendo no mundo. Esse candidato consegue organizar o dia dele de modo a manter-se atualizado sobre o que está acontecendo.

Há alguns anos, caiu um item sobre os mísseis que a Rússia vendeu para a Turquia. A pessoa que leu notícias diariamente sabia a resposta, mas não porque ele decorou esse fato. Lendo notícias diariamente, a informação fica armazenada.

O noticiário de política internacional é como uma história, com diferente nomes, fatos e personagens. À medida que você lê essa história, seus detalhes e informações mais importantes acabam sendo absorvidos.

Outro ponto importante é que, recorrentemente, a imprensa traz históricos de determinados temas, sempre que há novos acontecimentos. 

Dicas para quem está começando a estudar

Romeu Santos – Tanguy, se você só pudesse dar uma única dica para quem está começando a estudar agora, qual seria? 

Tanguy Baghdadi – Façam as provas antigas. Tem de fazer. Se o edital são as regras do jogo, as provas antigas são a história do jogo.

Por meio do edital, é possível compreender a estrutura da prova, mas não é possível ver o que realmente é a prova. Quando você vê as provas de anos anteriores, é possível ter uma dimensão muito mais real do que é cobrado. Quais palavras são utilizadas.

Entra banca, sai banca, a prova continua mais ou menos igual. Você pode voltar sete ou oito anos e fazer essas provas. Assim, é possível identificar os temas mais cobrados, o que é privilegiado, quais são as pegadinhas e como os erros são destacados.

Bate-papo completo na íntegra

E aí, gostou do bate-papo? Ele foi útil para você entender um pouco mais sobre o CACD e a carreira diplomática?

Então não perca os próximos episódios da série “Jornada CACD” e desbrave o mundo diplomático junto com a gente. 😀

Conhece alguém que iria adorar essas conversas? Compartilhe! 🧡


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