O racismo no teatro, na TV e no cinema nos 105 anos de Grande Otelo

  • Guilherme Praça
    Guilherme Praça
    16/11/2020 . min de leitura

No dia 18 de outubro de 2020 o ator Grande Otelo completaria 105 anos, mas a infelicidade de um infarto o levou aos 78, em 1993. Desde então, ano após ano, cinéfilos celebram sua memória. Sebastião Bernardes de Souza Prata foi um ator tão genial que não precisou ir até Hollywood, pois dizia que: “Hollywood veio até aqui” (referindo-se a parceria com Orson Welles em “É tudo verdade”). Apesar da rica história de Grande Otelo, o interesse desse texto é destacar que por mais talentoso que tenha sido, seu sucesso não caminhou afastado de um problema que até hoje acompanha atores e atrizes negras: o racismo

O pequeno Sebastião nasceu em 1915, um período muito próximo à abolição e marcado pelas teorias racistas que ainda tentavam determinar negros como inferiores. Neste cenário, enquanto iniciava sua trajetória, brilhavam no cinema atores brancos que se pintavam para interpretar negros com a técnica do blackface. Diziam que faltavam talentos, mas essa era apenas mais uma forma de mascarar o racismo, impedindo negros de atuarem. 

O ator branco Sérgio Cardoso na novela “A cabana do Pai Tomás” (1969)

Prova disso, ao menos no Brasil, foi a parceria de Grande Otelo, logo no início de sua carreira, com a Companhia Negra de Revistas (26), que reuniu talentos negros como Pixinguinha e Chocolat. A empreitada durou só um ano e foi criticada por “ridicularizar a raça”, mas a CNR teve a grande importância de mostrar que talentos negros existiam. E para abrir novas portas. 

Assim, anos depois, Abdias do Nascimento navegou por esses mares e contrariou o argumento do blackface, criando em 44 o Teatro Experimental do Negro (TEN). O TEN formou diversos atores negros para ocuparem esses espaços e foi o que possibilitou a Grande Otelo conseguir papéis mais complexos e relevantes. 

A CNR e a TEN desempenharam função importante na formação e escalação de negros e negras em peças, mas ainda não era o bastante para combater o racismo que se enraizava nos teatros e filmes. O mesmo aconteceu nos EUA, que conta com a atuação da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP) desde 1909, mas ainda assim, até hoje personagens negros são ridicularizados em Hollywood (apesar dos grandes avanços conquistados por esses grupos). 

Na primeira metade do XX, dezenas de filmes como O Nascimento de uma Nação (15), O cantor de Jazz (27), King Kong (31) e tantos outros usaram negros para interpretarem personagens exóticos, como africanos canibais e malignos caribenhos do vodu, ou até mesmo estupradores, bandidos, escravizados, bêbados, mendigos e, nos melhores casos, domésticas.

Hattie McDaniel ganhou um Oscar em 40, mas passou o resto da vida interpretando domésticas.

Desta forma, em um país que naturaliza as desigualdades raciais, o sucesso de Grande Otelo foi mais paradoxal do que pode parecer. Apesar de ter sido um dos primeiros protagonistas negros do cinema brasileiro, com o filme “Moleque Tião” (43) e ter atuado em papéis complexos em “Também somos irmãos” (49) e “Macunaíma” (69), sua carreira foi marcada pelos estereótipos.

Nas telas chegou a ser o Azulão, o Boneco de Piche, o Feijão, o Tisiu, o Faísca e tantos outros personagens com apelidos racistas. Logo, mesmo sendo mineiro, consagrou-se por interpretar muito o “malandro carioca”, sendo o negro esperto, capaz de enganar qualquer pessoa e vivendo sempre de pequenos golpes. Esse estereótipo foi amplamente usado pelas chanchadas da produtora Atlântida que fizeram sucesso nas décadas de 40 e 50. Nesse subgênero Grande Otelo atuou quase sempre como coadjuvante de atores brancos como Oscarito, Ankito e Zé Trindade. Desta forma, sua posição na tela, os estereótipos e o carisma agradaram as expectativas do que o imaginário racista normalmente associa a pessoas negras.

Podemos questionar a insistência de Grande Otelo nesses personagens, mas, para pensarmos sobre isso, é preciso ver que atores negros em papéis clichês ainda é comum, pois esses profissionais precisam trabalhar e estar presentes em grandes produções. Foi assim que o próprio Grande Otelo, conseguiu sempre se manter em atividade e ainda abriu portas para maiores produções e novos artistas negros. A atriz Hattie McDaniel é outro grande exemplo desse pensamento, pois quando questionada o porquê de aceitar os papéis de domésticas afirmou que preferia “interpretar uma criada por 700 dólares a ser uma por 7.”

A paradoxal carreira de Grande Otelo, portanto, não é um exemplo singular, mas sim mais uma consequência da estrutura racista. Diversas pesquisas sobre a presença de negros e negras nas telenovelas, nos teatros e no cinema demonstram como estes são historicamente marginalizados e silenciados e, quando aparecem, normalmente reforçam estereótipos. 

Em entrevista ao Mundo Negro, o diretor e roteirista Anderson Jesus afirma que: “Nós negros não estamos em primeiro plano na cabeça de quem escreve as personagens”. O comentário de Anderson ocorreu em um contexto de críticas à novela da Globo “Segundo Sol” (2018) que, apesar de se passar na Bahia, apresentava um elenco majoritariamente branco. 

Ainda sobre a questão do silenciamento, outra polêmica atual da Globo, semelhante ao que viveu Grande Otelo, foi a fala da roteirista Antônia Pellegrino sobre a escolha de José Padilha como diretor de uma série sobre a vereadora Marielle Franco. Segundo a roteirista, faltariam no Brasil diretores negros como Spike Lee e Ava Duvarney para dar ao projeto as dimensões que ela espera. Se admitirmos que Padilha não tem o reconhecimento internacional dos diretores citados, podemos concluir que o problema não é a ausência, mas sim a falta de oportunidade em um mercado dominado por pessoas brancas desde a produção até as premiações. 

Segundo pesquisa da ANCINE, analisada em matéria do Correio Braziliense, dos 142 filmes estudados entre 2016 e 2018, homens brancos representavam 75,4% dos diretores e 59,9% dos roteiristas, enquanto mulheres negras não aparecem nessas categorias, demonstrando uma disparidade de gênero e raça. Já em dados divulgados pela Agência Lupa (2019), apenas 1,30% dos diretores indicados ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro eram pretos. Os dados também mostram que mesmo entre os júris há grande disparidade, com 45,99% de homens brancos e apenas 4,41% de homens pretos e 4,41% de mulheres pretas.  Os números da ANCINE, também reforçam a tese da marginalização e não da inexistência, pois a probabilidade de profissionais negros participarem de produções audiovisuais é maior quando elas são realizadas por pessoas negras. Logo, uma produção com um diretor negro aumenta em 43,1% as chances de um roteirista negro e 65,8% as chances de atores e atrizes negras. 

Apesar do trabalho colossal, a existência de grupos como o TEN, a Associação de Profissionais do Audiovisual Negros e até mesmo a NAACP possui um papel importante para abrir portas e combater o racismo. Esses grupos demonstram como falácias do passado ainda se repetem e que essa resposta de uma “não existência” de profissionais negros é racista e superficial.

A questão não é a ausência, mas sim a existência de uma estrutura racista que ainda impera no Brasil e nos EUA, impedindo que atores, atrizes, diretoras e roteiristas negras alcancem as grandes produções. Neste cenário, assim como Grande Otelo e Hattie McDaniel, esses profissionais acabam aceitando projetos menores como forma de se destacarem e continuarem trabalhando. 


  • Guilherme Praça
    Guilherme Praça

    "Mestre em História Politica pela UERJ, professor empenhado na luta por uma educação antirracista e, com a licença de João do Rio, um homus cinematographicus."


Guilherme Praça
Guilherme Praça

"Mestre em História Politica pela UERJ, professor empenhado na luta por uma educação antirracista e, com a licença de João do Rio, um homus cinematographicus."