Os traços que unem os Palácios Itamaraty e o Mondadori

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    14/09/2020 . min de leitura

*Matéria por Cintia Lopes

“O importante da arquitetura é a surpresa que ela cria, o que causa nas pessoas…” costumava propagar Oscar Niemeyer quando questionado sobre a importância de seu ofício – que ele exerceu até pouco tempo antes de falecer aos 104 anos, em 2012. E foi justamente o fator surpresa que atingiu em cheio o italiano Giorgio Mondadori durante uma viagem a Brasília no ano de 1965. O deslumbre com o estilo do Ministério das Relações Exteriores foi determinante para que o presidente da editora italiana que leva o sobrenome de sua família, encomendasse a Niemeyer um projeto semelhante ao Palácio do Itamaraty. 

O objetivo era a criação de um espaço funcional para abrigar a nova sede de sua empresa em Segrate, nos arredores de Milão.  Um grande espelho d’água e uma construção única que marcassem os visitantes assim como aconteceu com ele próprio ao se deparar com o palácio brasileiro. Concluído em 1975, o Palazzo Mondadori ou Palácio Mondadori, tornou-se a obra preferida de Niemeyer na Europa. Ainda hoje, a sede do grupo Mondadori, que detém editora de livros e revistas, além de diversas livrarias espalhadas pela Itália, atrai os olhares curiosos e dos amantes da arquitetura inovadora. 

Sede do Palazzo Mondadori

Durante as comemorações pelo centenário do grupo em 2007, na Itália, Oscar Niemeyer relembrou o primeiro contato com Giorgio Mondadori, filho de Arnoldo Mondadori e fundador da editora. “Após uma viagem a Brasília, Giorgio me procurou pedindo um projeto semelhante ao Palácio do Itamaraty. Ele gostou especialmente da colonata e decidiu que queria fazer a construção da sede da editora assim como o palácio de Brasília”, explicou Niemeyer. Mas construir uma cópia fiel do Itamaraty não estava nos planos do arquiteto. “Para mim, o importante é criar coisas novas. Fui variando os vãos entre as colunas assim como num ritmo de música. As pessoas que visitam a sede da editora ficam espantadas porque a característica da colunata é única. Até hoje, nunca vi em nenhum lugar do mundo, uma colunata como a do Mondadori”, afirmou na ocasião.

A escolha por Niemeyer

Nos anos 1970, Niemeyer já era reconhecido mundialmente. Ainda assim, o historiador de Arquitetura Contemporânea, o italiano Roberto Dulio, conta que Niemeyer não foi a primeira escolha de Giorgio para idealizar o projeto da sede em Segrate. “Anteriormente, ele havia pedido um projeto a um arquiteto armeno que participou do projeto de construção do Centro Svizzero, em Milão, onde ficava a antiga sede da editora. Era um edificio convencional que seguia a linha modernista, mais comum naquela época. Mas quando Giorgio viu o Itamaraty, considerado por ele um exemplo de monumentalismo contemporâneo, ficou extremamente impressionado e decidiu dar o projeto a Niemeyer”, explica Dulio, que também é professor  de História da Arquitetura na  Politécnica de Milão e autor do livro  ‘Oscar Niemeyer e la Mondadori a Segrate’.

Oscar Niemeyer com Giorgio Calanca, Giorgio Mondadori e Lucino Pozzo com o modelo do edifício na primeira versão do projeto.

Assim como a construção do Ministério das Relações Exteriores em Brasília, as obras do Palazzo Mondadori também aconteceram durante um período de instabilidade política. Foram sete anos até a conclusão do projeto. 

Diante da situação e com receio de que o alto investimento na obra virasse alvo de críticas da imprensa e dos sindicatos locais, Mondadori vendeu o palácio ainda durante a construção para a Generali Real Estate, uma empresa de seguros, que por estatuto deve investir parte de seu capital na compra de edifícios. “A Generali fez um contrato de longo prazo de aluguel para a Mondadori, que é válido ainda até o momento”, explica Dulio.

Conexão Brasil e Itália

Ainda hoje não se sabe exatamente o motivo que trouxe Giorgio Mondadori ao Brasil e a passagem por Brasília. “A Mondadori é uma das maiores editoras italianas, então provavelmente ele estava viajando a trabalho. Infelizmente não existem registros fotográficos do sr. Giorgio no Itamaraty”, lamenta. Para o historiador, as diferenças entre as duas construções se dá principalmente em função da finalidade de cada um dos palácios. “Entendo que são duas obras primas e por razões diferentes. A diferença é que no Itamaraty o formalismo de Niemeyer se vê na realização de um display incomum do edificio. No segundo caso, no Palácio de Segrate, essa inspiração formal se torna uma máquina estrutural que mantém o edifício”, compara.

Niemeyer na frente do Palácio Mondadori

Apesar da monumental obra arquitetônica, Dulio explica que o Palazzo Mondadori não é tão conhecido na Itália por se tratar de um complexo privado, sede de uma editora. A localização, em Segrate, nos arredores de Milão, é uma região afastada do centro. “A importância do Palazzo Mondadori para a obra de Niemeyer é imensa. Diferentemente do Itamaraty, que além das suas funções políticas, é também um ponto turístico de Brasília, o Palazzo não é muito conhecido na Itália. Mas acredito que a partir das comemorações pelo centenário da editora, a divulgação da sede ajudou a popularizar mais o prédio não apenas entre os italianos, mas num contexto internacional”, avalia. 

Público caminhando em direção ao Palazzo Mondadori. Foto Francesca Simondi

O complexo do Palazzo Mondadori é composto por três alas: cinco pisos suspensos, que abrigam os escritórios e as redações. As duas estruturas abaixo são sinuosas e emergem de um espelho d’água. A forma irregular e ondulada lembra uma folha de árvore eo lago artificial do entorno do prédio, projeto do paisagista Pietro Porcinai, mede cerca de 20.000 m². O espelho d’água que se forma é bem semelhante ao do Palácio do Itamaraty. 

Formas inovadoras

Para o arquiteto e urbanista Alexandre Martins, mestre pela FAU, na USP, e atualmente doutorando na Universidade Presbiteriana Mackenzie, ambas as obras de Niemeyer são tanto atemporais quanto clássicas. “Monumentais em sua essência trazem, cada uma à sua maneira, qualidades estáticas e estéticas de difícil reprodução em contextos diferentes ou em situações fora daquelas nas quais estão inseridas até hoje”, acredita. Autor da dissertação de mestrado: “Liberdade Estática, Razão Estética: Permeabilidades entre Arquitetura e Engenharia na Obra de Oscar Niemeyer“, ele aborda ainda a importância atribuída aos edifícios do eixo monumental de Brasília e desenhados por Oscar Niemeyer. A sede do Itamaraty também foi objeto de estudo. A partir dela, a análise proposta sugeriu uma comparação à sede da editora Mondadori. “Acredito que o Palazzo Mondadori seja mais um exemplo da preocupação com a inovação, tão defendida pelos projetos arquitetônicos de Niemeyer, sobretudo no que diz respeito às estruturas, às formas e ao desejo por criar espaços atraentes ao convívio e à permanência”, conta. 

Sede do grupo Mondadori. Foto de Francesca Simondi

Segundo Alexandre, os espaços simbolizavam uma democratização das áreas públicas e surgiam como pontos de encontro, de uso e de apropriação das pessoas. “Daí as áreas externas serem assim tão vastas e bem articuladas: um desejo de integração, de trabalho em harmonia com a arquitetura e do uso dessa mesma arquitetura como estímulo à comunicação entre as pessoas”, compara.

Azulejos no Palácio Mondadori. Foto de Ezio Beschi

E o que faz a obra de Niemeyer ser ainda hoje considerada inovadora? “Ele marcou sua presença com o pioneirismo no uso do concreto armado, em edifícios com formas livres e pouco convencionais à época – basta pensar nos edifícios de Brasília e em outras partes do mundo para perceber o quanto a arquitetura de Niemeyer se diferencia e se destaca já desde os anos 1940 ou 1950”, exemplifica. 

Detalhes do Palácio Mondadori

A linguagem desenvolvida por Niemeyer foi crescendo e se aperfeiçoando ao longo do tempo. “É possível perceber alguns pontos de convergência em diferentes obras desenhadas em momentos distintos de seu percurso arquitetônico. Esses ‘pares análogos’ atribuem às suas obras características distintivas próprias, normalmente não encontradas em projetos de outros arquitetos como o concreto armado utilizado em formas livres, grandes vãos e sensação de leveza visual atribuída ao concreto”, conclui.

A odisseia da construção

Atributos esses que já estavam presentes desde que Niemeyer projetou as sedes dos ministérios em Brasília. Já na elaboração do Plano Piloto, em 1957, Lúcio Costa definiu que o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o Ministério da Justiça e dos Negócios Interiores deveriam se situar na entrada da Praça dos Três Poderes. O urbanista foi arquiteto do Itamaraty em 1930 e sabia bem que os dois ministérios eram responsáveis, respectivamente pela identidade externa e pela organização interna do Estado brasileiro. Desta forma, deveriam ter, em suas próprias palavras, um “enquadramento condigno”, um edifício com características próprias. 

Dividida em duas construções, a sede do MRE teria o Palácio abrigando os salões de recepção, o centro de convenções internacionais, o gabinete do Ministro de Estado das Relações Exteriores e o do Secretário-Geral das Relações Exteriores, além do Cerimonial e Imprensa. No edifício anexo, as demais atividades. Entre os anos de 1957 a 1963, há registro de pelo menos sete versões do projeto do palácio desenvolvidos por Niemeyer. 

Palácio do Itamaraty. Divulgação MRE

O planejamento da nova sede do Ministério se estendeu de 1957 a 1963 e a construção entre 1963 e 1967. A recepção às delegações estrangeiras presentes à posse do Presidente Arthur da Costa e Silva, em 14 de março de 1967, pode ser considerada a “primeira inauguração” do Palácio, que no ano seguinte, promoveu a recepção a Rainha Elizabeth II, um grande marco para o Palácio recém construído. 

Somente com a conclusão do anexo administrativo, em 1970, o Ministério se transferiu para Brasília. A primeira comemoração do Dia do Diplomata em 20 de abril daquele ano, é considerada a “segunda inauguração”. Apesar da demora, o Itamaraty foi o primeiro órgão a transferir-se integralmente para a nova capital.

E seguindo os três princípios básicos do diplomata que são informar, negociar e representar, a nova sede em Brasília deveria estar alinhada com essas funções. Além dos escritórios eram necessários espaços para eventos multilaterais e salões para atividades de representação, como cerimônias oficiais e, especialmente, as cerimônias de posse presidencial, que são atribuições do Itamaraty.

Foram várias as comissões de planejamento da transferência da sede do Rio de Janeiro para Brasília. Até 1969, Wladimir Murtinho participou de praticamente todas as comissões. Outra figura importante no projeto da nova sede foi o arquiteto-chefe do Itamaraty, Olavo Redig de Campos, conhecido também pelo projeto da residência Moreira Salles, atual sede do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro.

Na fase de elaboração do projeto, Murtinho e Olavo foram responsáveis por organizar as decisões internas e promover a interlocução entre o MRE, Oscar Niemeyer e sua equipe. 

A riqueza dos interiores

Grande parte da concepção e da construção do Palácio do Itamaraty ocorre em um período de instabilidade política e econômica no Brasil. O mesmo cenário vivido na Itália durante a construção do Palazzo Mondadori, nos anos 1970.

Esboço de Oscar Niemeyer para a sede do Mondadori

Por aqui, as dificuldades para o financiamento da obra eram grandes, mas Wladimir Murtinho teve ampla autonomia para administrar o projeto montando inclusive o acervo de obras de artes plásticas e decorativas do Palácio do Itamaraty. Ainda hoje, o excelente acervo também contribui para o aumento de visitantes à instituição. Entre fevereiro e agosto de 2019, a média de visitantes ao Palácio foi de 2029 por mês.

Tombado pelo Iphan, o Palácio do Itamaraty integra o Processo de Tombamento Federal nº 1550-T- 07, referente ao “Conjunto da Obra do Arquiteto Oscar Niemeyer”. Homologado pela Portaria nº 55 do Ministério da Cultura em 6 de junho de 2017, o tombamento incide sobre o edifício e algumas obras de arte integradas, como os painéis de Athos Bulcão. Já as obras “móveis” do acervo da instituição, não são tombadas. Apesar de não existir qualquer tipo de intercâmbio cultural entre os dois palácios, a arte brasileira também está presente no acervo de obras de Mondadori. Assim como o Itamaraty ele abriga os azulejos de Athos Bulcão em seu interior e leva a assinatura de Oscar Niemeyer.


Cintia Lopes tem 20 anos de carreira, é jornalista e roteirista com passagens pela Petrobras,  Record TV e Rede Globo.


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    Uma plataforma de estudos capaz de te ajudar a estudar com autonomia, através de planos de estudo, roteiros de leitura, mapas mentais, resumos e simulados.


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