Viagem ao Sul

Amigos do Clipping: quem lembra do que é considerada a questão de interpretação de texto mais traumática e mais difícil já concebida pelo CESPE?

Questão tensa sobre tema tenso e sempre em voga nas provas:  "identidade latino-americana". Mas esse post não é exatamente um post para falar sobre a prova do CACD e questões de português, mas para falar sobre verdades e clichés sobre nossos vizinhos por meio do um relato de viagem do CACDista e professor de Espanhol, Tiago Miranda.

Confira abaixo⬇️

Viagem ao sul 

* Tiago Miranda, Prof. Espanhol para o CACD do Curso IDEG

Depois de quase 4 anos finalmente consegui tirar Férias (!!!)😁, este autor considera férias qualquer período superior a 5 dias que não seja nem feriado, nem período de festas de fim de ano, daquelas que incluem pacote completo, aeroporto, hotel, passeio pega turista, tudo! Pois, ficou decidido que o roteiro seria Buenos Aires (3 dias), Ushuaia (6 dias) e por fim Santiago do Chile (Quase 5 dias), a ideia seria um recorrido pelo Pacto ABC em pouco mais de 10 dias.

A viagem foi espetacular sobre o ponto de vista de turista, mas o que chamou de fato a atenção foi a completa falta de conhecimento do Brasileiro em relação aos dois países.

Buenos Aires

Esta ignorância fica evidente nos primeiros minutos após o desembarque, a ideia do bonaerense arrogante, do argentino como “rival”, entre outras idiossincrasias repetidas durante anos pelos programas de tevê cai por terra nos primeiros 10 minutos na Cidade Autônoma. O Portenho de fato tem um jeito meio teatral de falar e um sotaque marcadíssimo (temos também em diversos pontos do Brasil — o paulistano, o carioca, o mineiro de BH, o recifense, paraense, etc.), entretanto, fica evidente a admiração e o respeito que possuem pelo Brasil. A curiosidade tremenda sobre como é nossa vida aqui, principalmente, quando não se é nem “paulista”, nem “carioca”, nem “gaúcho”, grande maioria dos visitantes.

 

Muito além de uma cidade encantadora, culinária maravilhosa e um povo acolhedor, o que mais me chamou a atenção na viagem foi o aspecto político do argentino. Cheguei poucos dias após a aprovação da reforma da previdência ao país, as ruas ainda apresentavam centenas de grades de contenção, bem como montanhas de pedras arremessadas pelos manifestantes contra as investidas da polícia, o que seguramente contribuiu para que a política fosse o assunto principal das conversas na grande maioria dos lugares por onde andei. Sempre preferi visitar os lugares pouco convencionais quando viajo, acho mais interessante e principalmente um retrato mais fiel do local visitado. Nestas caminhadas pelo centro da cidade, ficam explícitos os pontos de confronto entre a população e o governo.

Visitar a Praça de Maio é ver acampamentos como o de veteranos das Malvinas lutando há anos por reparações, o acampamento existe há mais de 1 década segundo os veteranos e muitos deles morreram ali, para estes “caídos” cruzes são colocadas no jardim do acampamento. É notar o grupo de pouco mais de 5 senhoras que vão todas as quintas-feiras as 15:30 da tarde há mais de 30 anos com seus panos amarrados lutarem por informações sobre os filhos desaparecidos durante a ditadura, é reparar nos protestos contra a violência de gênero (espalhados por toda cidade), evidenciando que esta ideia de “deixa pra lá, tem muito tempo já” não existe pelas bandas ocidentais do rio da prata.

Caminhando pela rua Bolívar, uma espécie de rua dos bancos da cidade velha, reparasse os tijolos no chão onde se pode ler o nome das pessoas desaparecidas ou mortas pela ditadura que trabalharam no banco, e que a própria instituição teve a sua comissão da verdade, na mesa rua algumas quadras adiante se lê “no son viejitos, son genocidas”, referência clara aos militares do período ditatorial e um recado para turma do deixa disso. As referências ao período peronista e as lutas dos movimentos sociais permeiam a cidade toda, assim como as críticas a Macri e aos Kischner.

Saí de Buenos Aires com uma certa vergonha de não conhecer mais e melhor a Cidade Autônoma e a história argentina, mesmo sentimento que tive ao visitar Belém do Pará em 2016.

Ushaia

Seguindo ao Sul, Ushuaia, o Fim do Mundo, a cidade mais Austral do Planeta, etc.. ao pousar fica claro que o tema política externa é o centro das atenções da cidade de pouco mais de 70 mil habitantes encravadas frente ao estreito de Beagle. O aeroporto, às duas maiores praças, o porto e a principal rodovia de acesso aos parques, a Ruta 3, tem o nome de Malvinas Argentinas.

A guerra permeia toda a comunidade e saindo um pouco da Calle San Martín (ONIPRESENTE EM TODA ARGENTINA), via principal da cidade se encontra facilmente veteranos de guerra e famílias que perderam entes queridos no conflito. Há um grande memorial com o nome de todos os soldados mortos aquecidos por um fogo eterno em memória dos combatentes, bem em frente se lê em letras garrafais “Las Malvinas son Argentinas, Volveremos Pronto” sinal que o conflito não está resolvido ao menos para a população patagônica.
 

Santiago: Cachai, o no?


Chegando a capital chilena, me hospedei no centro da cidade, poucas quadras do palácio de La Moneda, aproveitei a localização para caminhar pelo centro velho da cidade e conhecer mais do povo mais simpático que já conheci. Infelizmente não consegui fazer o tour pelo palácio, tem de marcar com semana de antecedência, mas tive a oportunidade de conhecer o centro cultural abaixo do mesmo, local cheio de cafés, livraria, museus, exposições e um centro de cinema que semanalmente apresenta festivais de filme de outros países com entradas a 2.000 pesos chilenos, algo em torno de 9 reais a inteira.

 A cidade “europeia” descrita por muitos amigos que visitaram Santiago antes e deram dicas, existe de fato nos bairros da providência, Las Condes e outros, contudo, o centro da cidade é bem abandonado e a quantidade de população em situação de rua chama a atenção, de certa forma desmistificando a ideia de que o Chile não é um país pobre ou desigual. 

Os grafitis da cidade relatam as dificuldades dos povos originários em manter a cultura e seu modo de vida, e reverenciam Neruda, Victor Parra, Gabriela Mistral e Violeta Parra. Espalhados pelos velhos casarões do centro uma dezena de centros culturais, museus e livrarias (que só perdem em número para as farmácias!) apresentam pequenas placas indicando fatos históricos ocorridos naqueles locais, tudo isso fora do circuito “turístico da cidade”, ainda que esteja na mesma área.

Contudo, na visão deste que vos fala, o ponto mais marcante da visita não só ao Chile, mas como um todo é o Museu da Memória e dos Direitos Humanos. Instalado em um casarão na zona central da cidade, a entrada apresenta nas paredes a declaração universal dos direitos humanos e usa o caso chileno como base para apresentar situações de perseguição e crimes políticos ocorridos durante períodos militares e suas respectivas tratativas de reparação. O térreo trata exatamente sobre este tema, e apresenta quadros de mais de 3 dezenas de países, inclusive Brasil, sobre os números e as ações tomadas pelas comissões das verdades.

A partir daí é uma viagem muito forte pelo 11 de setembro de 1973, no vão central do primeiro andar o visitante é apresentado a uma tela gigante com imagens ao vivo do palácio de La Moneda (instalação chamada vigília), e por uma parede que reproduz imagens do dia, e as falas de Allende e da Junta Militar, ainda pela sala existem diversos totens com reportagens sobre os primeiros dias após o golpe militar e relatos de sobreviventes dos atentados ao palácio.

Seguindo no mesmo andar uma caminhada assustadora sobre a perseguição, assassinatos e atos do governo militar chileno, confesso que apesar de ser fundamental a visita é preciso estar preparado, fiz a visita as 4 da tarde, saí de lá por volta das 6, meu dia acabou ali. No segundo andar as tentativas de retomada democrática e a campanha do plebiscito, brilhantemente retratada no filme “NO” de 2012, acalmam um pouco o mal-estar causado pelo andar inferior.
 

Impressões

O que ficou da visita, com destaque às capitais, é a sensação que tanto Argentina como Chile possuem capitais orgânicas, cidades que apresentam características próprias baseadas em séculos de histórias e resultados de conflitos sociais. A política é parte do dia a dia da população, perguntei a taxistas (um ótimo termômetro de qualquer lugar) sobre como era tratado o período militar nas escolas, no caso argentino segundo me relatou Óscar, é profundamente debatido e o grau de complexidade do debate aumenta ao largo da vida letiva. 

No caso Chileno, me lembrou muito o ensino no Brasil, onde 64 é tratado como um efeito espontâneo e que acaba em si próprio, sem detalhes sobre motivos, grupos de interesse e consequências. Entretanto, o Chile levou a cabo 3 comissões da verdade e de reparação, uma década de 90 e duas no século XXI, e é aí que as semelhanças terminam. Tanto os argentinos, quanto os chilenos são um povo extremamente orgulhoso de sua história, e aparentemente muito ligados a política. 

Claramente há um movimento de desanimo em relação aos políticos como sentimos hoje no Brasil, mas isso não resultou em um esvaziamento do debate, e sim em novas tentativas de organização social, fica claro nos grêmios políticos dos bairros em Buenos Aires (vi 4) e nos convites de ciclo de debates nas bibliotecas e livrarias chilenas.

Outro ponto que fica claro é a necessidade de encarar a história de frente e prover respostas claras e objetivas a sociedade das graves situações sofridas pelos países durante as ditaduras militares, é preciso apresentar de maneira irrefutável as pessoas que não viveram sobre o julgo dos ditadores os horrores perpetrados escondidos em discursos de “amor pátrio e aos bons costumes”. Tanto Argentina, quanto Chile, como o Brasil vive atualmente períodos conturbados politicamente, onde soluções totalitárias são apresentadas como saídas fáceis.

É assombroso como o primeiro discurso da junta militar no dia 11 de setembro de 1973 encontra semelhança no discurso de políticos quase 4 décadas depois. Fundamentalmente é urgente que tratemos nossa história com maior respeito e profundidade, a frase que marcou esta visita é de um fotógrafo chileno chamado Portoit, exilado durante a ditadura, e que se repete no museu do holocausto na Alemanha “é preciso reconhecer os erros do passado e nunca permitir que se repitam”.

Visitar aos dois países é uma experiência fascinante, e explica muito das nossas semelhanças e a urgência da mudança de postura em relação aos nossos vizinhos. Largar esta marra de “rivais eternos” e entender que temos muito mais em comum que imaginamos. Talvez fosse essa a ideia que permeou a tentativa do Pacto ABC do Barão, talvez seja hora de reinventar esta ideia.
Cachai, o no?


PS: Cachai é o equivalente chileno para o brasileiríssimo “ tá ligado?”

Um abraço,

 *Thiago Miranda é CACDista e Professor de Espanhol pelo IDEG