O que caiu na Prova de Redação para candidatos a diplomata no CACD 2019

  • Clipping
    13/10/2019 . min de leitura

Considerada a prova de redação mais complexa e difícil do país, a Prova de Segunda Fase de Português para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) de 2019 acaba de ocorrer neste dia 12 de Outubro, abrindo a maratona de provas discursivas que se seguirá pelos próximos dias. [ver mais aqui sobre como é a Prova discursiva de Português para o CACD]

Neste artigo do Blog você encontrará uma breve análise da prova de redação do CACD 2019.

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Observações gerais sobre a prova

A prova de redação de Português surpreendeu os candidatos?

De certa forma, sim. Estamos aqui diante daquele eterno retorno da banca àquele tipo de prova mais ligada a temas afetos ao pensamento social brasileiro e à literatura do que a temas de Política Internacional. De certa forma, pode-se dizer que a prova desse ano assinala, sim, uma mudança sutil em relação a anos anteriores. Por um lado,  a banca do CACD 2019  afastou-se  daquela linha de prova de anos anteriores em que predominavam temas puros de PI na prova de redação. Por outro, a prova de redação continua se equilibrando naquela ambígua”terceira margem” entre a Língua Portuguesa e  Política Internacional, deixando propositalmente os candidato à deriva entre conceitos de PI e conceitos literários…

Falando em Terceira Margem, passemos às questões para conferir de perto o que rolou 🌊🚣🏽‍♂️…

Redação

 

A noção roseana de “terceira margem” surpreendeu boa parte dos candidatos.

Alguns conceitos CACDísticos que chegaram a ser explorados por alguns candidatos:

  • Equidistância e diplomacia;
  • Não-lugares (Marc Augé) e “entre-lugares” (Silviano Santiago);
  • Idealismo e solidariedade como horizonte;
  • Diálogo, “língua comum” (CPLP) e afasia;
  • Diáspora, exílio forçado e origens;
  • Laços culturais;
  • Pontes e “travessias”;

As possibilidades de combinação das metáforas náuticas do enunciado são incontáveis… Chegará a um horizonte seguro o candidato que conseguir navegar com clareza e criatividade por ideias e conceitos que ambas evocam, sem afastar da rota do tema proposto e, claro,  ancorando seu texto nas cartilhas do Cunha, Gama Cury e cia. 😁

💡 O que é “A terceira margem do Rio”?

O conto A terceira margem do rio foi publicado na obra Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, em 1962. O enredo fala de um homem que abandona tudo para ir viver em isolamento e silêncio absoluto, em uma canoa, no meio do rio. O conto é narrado pela perspectiva de seu filho, que questiona a ausência e a escolha do pai. Há inúmeras interpretações para o conto. Boa parte delas focando em  aspectos metafísicos e conceitos recorrentes na obra de Rosa, como o de “Travessia”. Para além da literatura roseana, o conto e noção de “terceira margem” transbordou para outras áreas da cultura brasileira. O conto foi adaptado para o cinema por Nelson Pereira dos Santos em filme homônimo e, também, foi inspiração para a música  “A terceira margem do Rio” composta por Milton Nascimento (música) e Caetano Veloso (letra).  Dê o play 🎶 e continue a leitura

 

É importante ressaltar que a prova não exigia o conhecimento do conto A Terceira Margem do Rio nem conhecimento geral da obra de Rosa. Por outro lado, algum contexto sobre o universo roseano  facilitaria a articulação de ideias entre ambos os textos de forma consistente. É, também, provável que demonstrar familiaridade com o conto será valorizado pela banca, aguardemos a grade de correção.

Para quem quiser entender melhor as relações da obra de Rosa com conceitos diplomáticos, o Clipping recomenda:

 

Exercício 1

 

No exercício acima, há outra questão que, de certa forma,  fala sobre ideias que, curiosamente, estão relacionadas à metáfora da “terceira margem” vista na redação.

Em CACD´s anteriores, antes da leva de provas discursivas focadas em temas mais afetos à PI, costumava figurar entre as leituras priorizadas por  CACDistas diversas obras que tratam a temas identitários. Duas delas merecem destaque como possíveis balizas para a resposta desse item.

O Cosmopolitismo do Pobre, coletânea de ensaios críticos do mineiro Silviano Santiago, que trabalha com o conceito de “entre-lugar do discurso latinoamericano“, poderia dar subsísdios conceituais menos óbvios do antropofagia etc para tratar de hibridismo cultural e pós-modernidade nas culturas latinoamericanas.

 Leituras Brasileiras – itinerários no pensamento social e na literatura, clássico CACDístico de Maria Veloso e Angélica Madeira, recomendado ainda por boa parte de professores de Português especializados no CACD , traz em seu capítulo 8 (Debates intelectuais nos anos50,60 e 70: engajamento e contracultura”) conceitos relacionados à identidade e alteridade contemporânea, sobretudo no contexto do advento dos meios de comunicação de massa.

Ah Clipping, era preciso obrigatoriamente ter lido essas obras?

Não. Aqui também as possibilidades de interpretação são incontáveis… No entanto, ressaltamos que são obras que ao mesmo tempo relacionam-se com o temática e são obras valorizados pelos membros da banca. O membro da banca Felipe Fortuna, possível artífice desse exercício,  por exemplo, considera Silviano Santiago como crítico literário incontornável, como demonstra essa resenha do membro da banca sobre a obra de Silviano Santiago e seus conceitos.

CACDistas que  que chegaram a ter contato com essas ou outras obras voltadas a temas identidade, literatura e cultura terão mais facilidade para inter-relacionar esses conceitos de forma consistente.

 

Exercício 2

 

Na última questão, temos Câmara Cascudo, que segue causando assombros antropológicos de praxe no CACD.  O potiguar já é figurinha carimbada tanto no TPS quanto em provas discursivas anteriores, vide o exercício 1 da prova de redação de 2013.

Curiosamente, percebe-se aqui uma relação entre um tema do exercício anteriores (hibridismo) e também da da redação (terceira margem). A surpresa fica para a temática culinária 🍲.

Algumas leituras relacionadas ao tema e recomendadas pelo Clipping a título de curiosidade:

Conclusão

Cobrou a banca do CACD 2019  do candidato maturidade intelectual para incorporar e inter-relacionar leituras prévias sem afastar-se do tema. Isso não é nenhuma surpresa. Como já figurava nas instruções dos Guias de Estudo do CACD:

Produto do complexo processo de domínio da língua escrita, no nível exigido pelo concurso, a redação deve revelar a maturidade intelectual do candidato. Este deverá demonstrar pensamento crítico, proveniente da capacidade de incorporar e inter-relacionar leituras prévias, sem afastar-se do tema proposto. (Orientação para a Prova de Português – Guia de Estudos. pag 26)

É mais do que nunca oportuno insistir nas linhas acima☝️… Nem tudo cobrado do candidato está no Edital: maturidade intelectual e capacidade de inter-relacionar ideias é algo que não se adquire lendo a obra x ou y, mas cultivando diariamente interesse e pequenos aprendizados que os candidatos à diplomacia devem colher sobre temas eminentemente culturais.

Nesse sentido,  a construção de um arcabouço cultural que permita ao candidato transitar com desenvoltura por entre literatura, cultura, antropologia, filosofia e disciplinas afins não deve ser subestimado.

Maturidade intelectual é um asset  tão fundamental quanto a abordagem pragmática na leitura da Bibliografia recomendada para o CACD.

E aí… Comments sobre a prova de Português? Deixa aí nos comments que o Clipping não deixa ninguém no vácuo.

Entrevista Professor João Felipe Geografia


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