Prof. especializado no CACD analisa a série da BAND sobre História do Brasil

  • Clipping
    06/07/2017 . 29 min de leitura

Já viu aquela série da nova BAND sobre História do Brasil em que o Leo Jaime faz o papel de Pedro Ie que tem o Dan Stubach e a Lília Schwarcz? Pois é! Muitos candidatos, buscando indicações de filme e séries, tem feito a seguinte pergunta:

Clipping, vale a pena ver a série para o CACD?

Para responder a essa pergunta, surgiu a ideia de chamar quem entende profundamente de CACD e de História do Brasil para falar abertamente dos erros e dos acertos da série. Convidamos o Prof. João Daniel, do Curso Clio, para um review bem honestão. Além disso, transcrevemos todo o conteúdo do vídeo em texto. Clipping para que isso? Pensamos que isso poderia facilitar a vida de quem quiser ler a série e dar aquela fichada básica nos conteúdos mais importantes que ela traz. Isso pode ser feito inclusive usando o Fichador do Clipping (quem é assinante e não tem precisa instalar pela plataforma). 

Então nesse post teremos:

1. Resenha do Prof. João Daniel, do Curso Clio, sobre a série

2. A série em vídeo

3. Transcrição do roteiro otimizada para leitura e fichamento

Vejamos o que diz o Prof. João Daniel primeirot:

 

1. Resenha crítica do Prof. João Daniel

O que eu achei da Série Era uma vez uma História?

+por João Daniel

Imagine se a gente tivesse Hollywood? História incríveis como a contratação de Lampião para capturar Luis Carlos Prestes já teriam virado filme que concorreria ao Oscar. Faço sempre essa observação em sala de aula quando lembro de alguma ‘pocket story’ verdadeira ou quase, dessas que mantém o aluno acordado e nem sempre cai no TPS. Fica sempre uma dorzinha de não ter quase nenhuma produção cinematográfica ou de desenho animado sobre a história do Brasil. Mesmo em quadrinhos são poucos os exemplos. A maior parte sofrível em qualidade ou verosimilhança. Pois bem não é que uma das maiores estudiosas da História do Brasil a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz resolveu contar em episódios nossa história desde 1807? Na BAND. Contracenando com Dan Stubach e passeando pela história. A primeira temporada teve quatro episódios e contou a história do Período Monárquico. O que eu achei?

O que eu achei?

Este professor não tem vergonha de confessar sua inveja. Queria que tivesse sido eu. Sou menos charmoso que a Lília, mas bem mais que o Dan. Eu faria perguntas melhores que as dele também. Ele é uma espécie de sparring partner, faz as perguntas leigas, meio toscas para ela levantar a bola e responder. O dialogo não é natural e parece tatibitati. Fica didático demais, mas acho que essa era a proposta mesmo.

Ensina história?

Ensina. Muito e muito bem. Acho que melhor que em sala de aula. Lilia é competente e clara. E o programa tem a enorme vantagem de trocar os meios pelos quais ensina. O discurso epicizado é feito pela Lilia e por um narrador onisciente que usa e abusa de recursos em vídeo animados, e explicações com gráficos e mapas. Mas ao mesmo tempo e com freqüência a Lilia e o Dan entram mesmo na história e encontram D. João, D. Maria, Dona Carlota, José da Silva Lisboa, escravos e sacerdotes, aristocratas e militares que encenam pedacinhos da história num jogral narrativo muito muito bem feito. Os atores – a exceção do Leo Jaime que tem larga experiência teatral e televisiva com o príncipe regente – também soam artificiais e didáticos demais mas, de novo, não é bem um filme, é mais uma aula mesmo. É muito divertido ver o príncipe resmungando “É príncipe regente!”, corrigindo quem o chamava de rei antes de 1816. Parece eu com os alunos.

A pesquisa é muito competente e se serve para quem está começando a estudar ou relembrar história do Brasil também faz boas discussões historiográficas, incorporando ao texto debates de ponta da historiografia recente. Fica clara a curadoria da Lilia Schwarcz quando ela apresenta suas próprias teses presentes em livros como “O sol do Brasil” sobre a “missão” artística francesa que ela acha que não foi missão (e assim o diz) ou a “longa viagem da biblioteca dos reis” sobre a nossa biblioteca nacional trazida de Portugal por D. João.

Vacilos

Sempre tem né? Na série vários. No primeiro episódio identifiquei dois. O narrador alega que a ‘abertura dos portos às nações amigas’ proposta por José da Silva Lisboa teria como nação amiga apenas a Inglaterra. É uma simplificação incorreta. Na coleção “História do Brasil nação” volume I, organizado pela própria Lilia tem um artigo do Embaixador Rubens Ricupero que discute isso e atesta que a Inglaterra não queria um regime liberal estrito mas apenas sim o status de nação mais favorecida que obteve em 1810. Lord Strangford que não estava presente em 1808 vai passar quase dois anos convencendo (ou pressionando) o príncipe a ceder. Para Ricupero os tratados de 1810 tem sentido diverso da abertura de 1808. A série dá a entender que são complementares, uma continuação do interesse inglês. Lilia, ou não leu o roteiro todo ou não leu o artigo do Ricupero antes de publicar com seu nome na capa. Acontece.

O que não pode acontecer é ainda dizer que chegaram 15 mil pessoas no Rio de Janeiro. Nem cabiam 15 mil nos navios. Tá mais pra 500. Com a tripulação chega à uns 8 mil e esses voltaram em agosto. Essa informação está erradíssima. 15 mil talvez nem se somar todo mundo que chegou ao longo do período Joanino. O arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti desmente esse e outros erros sobre a cidade em 1808 no formidável “Rio de Janeiro setecentista”. Ele atribui isso a um relato de um marinheiro inglês que sequer estava na viagem e que desde então todo mundo repete sem conferir. Lilia repetiu também, infelizmente.

Serve para o CACD?

Se você esta começando, mas muito começando mesmo, serve. Se você quer revisar também. Mas esteja atento a esses errinhos. Quando a historiografia é ela própria Lilia Moritz Schwarcz é bastante atenta, sofisticada e atualizada. Não é o caso em todos os temas. Se você já estuda há um tempo não vai aprender nada de novo. 

 

2. A Série Era uma vez uma História

 

3. Transcrição do roteiro

[accordions] [accordion title=”Clique para abrir versão transcrita da série” visible=”no”] Que país é esse, do tamanho dos Estados Unidos mas com quase a metade da sua população? Como se explica um lugar onde apenas metade dos presidentes foi eleita pelo povo e só um terço deles concluiu o mandato? Um país que hoje é o sétimo mais rico do mundo mas também o décimo mais desigual. Como foi? Como é? Uma nação que criou o samba e a bossa nova mas foi a última da América a abolir a escravidão. Como diria Tom Jobim, um país que definitivamente não é para principiantes. O Brasil é um drama mas também uma aventura. Heróis incríveis, vilões desmedidos e homens que fizeram o que puderam numa terra marcada pela resistência, as traições e as ironias. Onde os monarcas são fugitivos e os patriotas fuzilados. Dividido até a alma entre abolicionistas e escravocratas, imperadores que acreditavam na República e republicanos que preferiam a monarquia. Um país de guerras, assassinatos e paixões, encontros e desencontros. Parece ate ficção mas não é. É a História do Brasil. E disso vai falar este programa, esta viagem. Dan Stulbach: Tudo bem, então aqui estamos, em Portugal. Do meu lado a Lilia Moritz Schwarcz, antropóloga, professora, historiadora. Lilia, então é aqui que a história do Brasil começa? Lilia Schwarcz: Na verdade, Dan, aqui começa a história do Brasil independente. Porque é o momento em que a Coroa Portuguesa resolve fazer as malas e partir para a sua colônia tropical, chamada Brasil. Eu sugiro que a gente vá ver o embarque, tá bom? Dan Stulbach: Sugestão aceita, vamos embora. Mas eu não pensei que ia estar assim, tanta… Lilia Schwarcz: Então, hoje, 29 de novembro, o vento soprou Sudeste. Dan Stulbach: Não, está frio. Lilia Schwarcz: Está frio. E a família real está pronta para zarpar. Dan Stulbach: Que horas são agora? Lilia Schwarcz: Duas da manhã. A notícia era para ser um segredo mas, como você pode ver, se espalhou feito faísca. E as pessoas estão com pressa, porque o exército francês está chegando em Lisboa. Dan Stulbach: Napoleão. Lilia Schwarcz: É, o exército de Napoleão, o temível exército de Napoleão. Famoso pela bravura mas também famoso por sua violência.  Dan Stulbach: Ih! para, para, para. Vamos voltar alguns anos na história, para a gente entender melhor. Em 1806, o ilustre imperador francês Napoleão Bonaparte já havia dominado a Suíça, adentrado a Itália, atravessado a Alemanha e chegado à Polônia, Áustria. Bonaparte ia destronando monarquias e colocando protegidos e parentes em seus governos, como o brasileiro já conhece. Mas em toda a Europa sobrava uma pedra no sapato: a Inglaterra. Para enfrentá-la, o jeito era atingir sua economia, isolar a ilha. Assim, em 1806 foi decretado o Bloqueio Continental, que proibia todas as nações europeias de comprar produtos vindos da Grã-Bretanha. Os ingleses, é claro, devolveram na mesma moeda: vetaram o comércio e a navegação em todos os portos inimigos. No meio disso tudo estava Portugal, em cima do muro, neutro enquanto podia. Dan Stulbach: E agora, José? Quer dizer, e agora, João? Lilia Schwarcz: Bom, bem que D. João tentou manter essa política de neutralidade, que consistia em fingir que agradava as duas nações. Dan Stulbach: A França e a Inglaterra. Lilia Schwarcz: Exatamente. Mas não agradava ninguém. Tanto que a Inglaterra começou a pressionar política e comercialmente, enquanto a França ameaçou invadir o território português.  Dan Stulbach: Então, ele não queria guerra com um lado nem com o outro. Naturalmente, ele ficava mantendo essa posição de neutralidade enquanto pôde. É isso. Lilia Schwarcz: Isso. Era uma espécie de nem lá, nem cá. E na verdade o que ele não percebia é que a política toda estava ficando muito ameaçadora. Dan Stulbach: Claro. Foi daí que eles decidiram fechar os portos para a Inglaterra? Lilia Schwarcz: Foi mais ou menos assim, Dan. Porque, de um lado D. João negociava secretamente com a Inglaterra a proteção por mar, caso os portugueses resolvessem ir para a sua colônia, chamada Brasil. Dan Stulbach: Brasil. Lilia Schwarcz: Mas ao mesmo tempo, eles não declaravam guerra com a França. Dan Stulbach: Então, imagina que essa indecisão, essa posição de neutralidade, como você quiser chamar, deve ter deixado os conselheiros malucos. Rodrigo de Sousa Coutinho: Se Portugal não fizer o que eu quero, a Casa de Bragança não reinará mais na Europa dentro de 2 meses. Este foi o recado de Napoleão, Alteza. Alteza. D. João: Preciso de tempo para pensar.  Rodrigo de Sousa Coutinho: Não temos mais tempo. A Família Real precisa fazer a sua mudança para ultramar. É fundamental a defesa do espaço atlântico português, a integridade da metrópole e do império, sem deixar de lado a fidelidade e a proteção para com os ingleses António Araújo: Está sugerindo que a Corte fuja, D. Rodrigo? Rodrigo de Sousa Coutinho: Não. Só até os ânimos se acalmarem. O império português pode ser governado de qualquer uma das suas colônias da África, da Ásia, do Brasil. António Araújo: As informações que eu tenho da França, e Vossa Alteza sabe das excelentes ligações que tenho com o povo francês, me levam a crer que essa sugestão é absurda. É um passo muito arriscado. Rodrigo de Sousa Coutinho: Estás sendo contraditório. O argumento para uma aproximação com os franceses é justamente o medo e a recusa da revolução. Conselheiro: Vossa Alteza, acabo de receber o jornal de Napoleão. As tropas francesas chegaram a Abrantes.  D. João: Casa Bragança Cessa de Reinar. Não é possível! Diga para os criados reunirem tudo o que puderem, o mais rápido possível e em segredo. Em três dias a Família Real inteira partirá para o Brasil. Deixem-me só. Dan Stulbach: Carlota Joaquina, esposa de D. João, imagino que não tenha gostado da ideia, não é? Lilia Schwarcz: Não, nem um pouco e desde o início ela era contra essa ideia.  Dan Stulbach: Bom, não era a lua de mel dos sonhos de ninguém, não é? Lilia Schwarcz: Bom, lua de mel não tinha mesmo, o casamento, sobretudo entre realezas, como é o caso de Portugal e Espanha, era uma estratégia, era um negócio de estado. Para você ter uma ideia do bom relacionamento deles, em 1805 a Carlota Joaquina organiza uma conjuração contra D. João, ou seja, uma espécie de golpe de estado contra o marido. Dan Stulbach: Uma esposa dando golpe de estado no marido, isso não é tão incomum assim, sabia? Carlota Joaquina: D. João é um covarde. Imagine, me tirar da Europa para me levar àquela terra de selvagens. Não vá esquecer as minhas pratarias. Esses quadros também, embrulhe todos, todos. Ainda me paga por isso! Dan Stulbach: Isso que eu chamo de crise conjugal. Isso sim, não é? Lilia Schwarcz: Bom, Dan, se teve uma, D. João nem notou, porque ele era uma figura muito amável, ele era de fato bonachão, mas ele não era o bobalhão que a história do Brasil fez dele. Dan Stulbach: Não era o comedor de coxa de frango? Lilia Schwarcz: Não, os Braganças gostavam, mas mesmo assim ele não fazia só isso na vida, ao contrário, ele foi Príncipe Regente num momento muito difícil da nossa história, porque a sua mãe, Dona Maria I já se encontrava insana e ele estava reinando no limite, numa situação muita complexa, numa situação de guerra. Dan Stulbach: Claro. E a Carlota Joaquina, hein, Lilia? Todo mundo fala que ela era feia, esquisita, irritada, masculina. Lilia Schwarcz: Então, Dan, eu não diria para você que ela era bonita, propriamente dito, nem tinha um temperamento dos melhores, mas essa história só em parte é verdade, porque o que acontece é que Carlota Joaquina gostava de andar a cavalo, colocava um rifle no ombro, muitas opiniões, ela era culta, ela era bastante inteligente. Dan Stulbach: Então é uma visão um pouco machista? Lilia Schwarcz: Totalmente machista, na minha opinião. Dan Stulbach: Em todo o caso, se D. João e Carlota Joaquina entrasse num site de relacionamento? Lilia Schwarcz: Não dava match. Dan Stulbach: Não. Lilia Schwarcz: Dan, a verdade é que Carlota Joaquina e D. João nunca se entenderam muito bem. Há quem diga que eles viveram infelizes para sempre. E eles só se reuniam mesmo nas ocasiões mais oficiais.  Dan Stulbach: Por exemplo, aqui. Não, olha esse lugar, gente, olha isso. Não, um senta aqui, outro ali. É imenso. Bom enfim. Lilia Schwarcz: E mais impessoal. Dan Stulbach: Impessoal. Ocasiões especiais como a fuga. Vamos lá ver os preparativos, vamos lá. Era a primeira vez que uma corte cruzava o Atlântico e tentava a sorte longe da Europa mas, diferente dos tempos dos primeiros descobridores, que atravessavam o oceano para encontrar glória, riqueza e terras americanas, agora era a própria dinastia dos Braganças que faria a viagem, em busca de algo bem menos pomposo, a continuidade da Casa dos Braganças no poder.  Dan Stulbach: Se por um lado teve gente que visse tudo isso como um grande ato de covardia, fugir também pode ser visto como um ato de coragem, não é, não? Lilia Schwarcz: Isso. As duas coisas, porque os franceses estavam chegando, então não havia tempo, era preciso partir para o Brasil. O famoso exército do uniforme azul se aproximava de Portugal, com seis mil homens mas, ao contrário do que se imaginava, vinham estropiados, sem sapato, de roupa rasgada, passando sede e morrendo de fome. Metade estava doente e sem condição alguma de lutar.  Dan Stulbach: Se eles soubessem que as tropas estavam num estado tão lastimável, eles não teriam tanta pressa.  Soldado: Cuidado com isso, homem! Dona Maria I: Não corra tanto, vão pensar que estamos a fugir. Carlota Joaquina: Encaixa os meus sapatos, seu inútil. [00:12:26 ininteligível]. Queres que eu ande descalça por aquela terra?  Dan Stulbach: Esse pessoal todo vai conseguir embarcar? Lilia Schwarcz: Não, muita gente acabou ficando de fora. O desespero era tanto que as pessoas iam deixando tudo para trás…  Soldado: Ande, homem, ande! Lilia Schwarcz: … Carruagens de luxo, pratarias, livros. Homem do povo: Covarde! Seu fujão! Príncipe dos macacos! Seu babão! Dan Stulbach: Eles vão embora assim, sem dar nenhuma satisfação para a população? Lilia Schwarcz: Amanhã vai sair um comunicado oficial de D. João, dizendo que ele foi para o Rio de Janeiro e só retorna quando a paz voltar a reinar.  Dan Stulbach: Ih! Então eles têm uma longa viagem pela frente.  A esquadra portuguesa tinha oito naus: três fragatas, dois brigues, uma escuna e uma charrua. Acompanhavam quatro naus inglesas e trinta navios mercantes. Na embarcação Príncipe Real, a maior, vinham mil e cinquenta e quatro pessoas. Dentre eles, D. João, Dona Maria, os herdeiros Pedro e Miguel e o capitão inglês Sir Sidney Smith. No Afonso de Albuquerque vinha Carlota e suas três filhas. Ao todo, quinze mil pessoas a caminho do Rio, enfrentando de tempestades a infestações de piolhos, que destruíam cabeleiras reais. No meio do trajeto, pelo mau tempo ou por decisão política, a caravela da Família Real decidiu desviar para a antiga capital do Brasil, Salvador que, contrariando os preconceitos do nosso Brasil, se preparou às pressas para receber o Rei, depois de cinquenta e quatro dias ao mar.  João de Saldanha da Gama: Seja bem-vindo, meu Rei. D. João: Obrigado, João mas é Príncipe Regente. Príncipe Regente. João de Saldanha da Gama: Não importa, Majestade, para mim é Rei. Permita-me que eu lhe apresente o meu grande amigo José da Silva Lisboa. Lisboa é um liberal, um defensor das ideias de Adam Smith. José da Silva Lisboa: Apenas sou entusiasta da liberdade de câmbio, mas não do liberalismo político. João de Saldanha da Gama: Essas opiniões já lhe custaram algum mal-estar com a opinião pública, sabe. José da Silva Lisboa: Opinião pública? Não conheço essa senhora. João de Saldanha da Gama: Majestade, deixe que lhe mostre os nossos fatos, os nossos números.  D. João: Podemos sentar? João de Saldanha da Gama: Por favor. Dan Stulbach: Nessa época, Portugal proibia as colônias de fazer comércio direto com outros países, o que estava dificultando a vida econômica das elites locais.  João de Saldanha da Gama: Nós temos uns navios repletos de mercadorias que não podem zarpar. D. João: Por ordem minha. Os bens só podem ir da colônia para a Coroa, mas Portugal está na mão daquele maldito Napoleão, sabe-se lá até quando.  José da Silva Lisboa: Pois então, eu sugiro à Vossa Alteza que aplique um pouco do liberalismo inglês aqui em vossas terras.  João de Saldanha da Gama: Majestade, nós preparamos este documento para a sua apreciação. Dan Stulbach: Juntos, convencem o monarca a assinar o decreto de abertura dos portos brasileiros às nações amigas.  D. João: Ficam em suspenso todas as leis, cartas-régias ou outras ordens que até aqui proibiam neste Estado do Brasil o recíproco comércio  e navegação entre os meus vassalos e estrangeiros.  A partir do decreto de abertura dos portos, ficava permitida a importação de todas as mercadorias que vinham de nações amigas, mas na prática a única nação amiga era a Inglaterra. E o resultado disso foram preços amigos para importar vinho, aguardente e azeite. Agora o brasileiro pagaria apenas do dobro de imposto, mas o benefício não terminava aí. Também poderíamos comprar uma lista de novidades, assim nosso país foi inundado de produtos inúteis para uma colônia tropical. O que raios fazer com patins de gelo? A resposta, claro, viria do jeitinho brasileiro e as lâminas, os patins, viraram trinco de porta. Dan Stulbach: A Bahia hoje é o lugar perfeito para férias, mas D. João não descansou um minuto. Antes de zarpar para o Rio, ainda fundou uma escola de cirurgia e autorizou a instalação no Brasil de fábricas de vidro, pólvora e de uma companhia de seguros. D. João: Bom, Senhores, creio que estou pronto para partir para o Rio de Janeiro. João de Saldanha da Gama: Vossa Majestade, fique mais um pouco, Rei, não vá embora. José da Silva Lisboa: Fique mais um pouco. Fique, meu Rei. D. João: É Príncipe Regente. José da Silva Lisboa: Missão cumprida. Em 1808, o Rio que D. João ia encontrar ainda não era aquela cidade maravilhosa. Parecia mais uma aldeia entre o Morro de São Bento, o Morro da Conceição e o extinto Morro do Castelo, que foi demolido em 1922. Havia alguns poucos prédios reais, igrejas, casas. Suas ruas eram estreitas e sujas, cheias de ratos e urubus. A expectativa de vida não passava dos quarenta anos. E a população era de apenas sessenta mil habitantes, um terço deles escravos, gente que hoje caberia com folga dentro do estádio do Maracanã. O jeito de se vestir da elite vinha da moda francesa, pedia roupas pesadas, com várias camadas, em alguns casos até perucas em mulheres e homens, que num calor equatorial virava uma verdadeira sauna portátil.  Dan Stulbach: Como uma vila como essa, tão despreparada, vai receber todo mundo que está vindo? Lilia Schwarcz: Olha, Dan, a situação era mesmo complicada. A cidade toda tinha em torno de sessenta mil habitantes e agora vão chegar quinze mil portugueses, de um dia para o outro. Dan Stulbach: Como é que eles vão se preparar para isso? Lilia Schwarcz: Eu é que lhe faço a pergunta: quando alguma coisa sai errado, quem é que o governo faz pagar a conta?  Dan Stulbach: Nós. Lilia Schwarcz: Isso mesmo. Guarda do Rei: Aquela casa ali.  Residente de uma casa: O que o senhor está fazendo? Esta casa é minha. Guarda do Rei: A partir de hoje, ela é propriedade real. Residente de uma casa: E eu vou para onde? Guarda do Rei: Isso não é problema meu. Ordens da Coroa. Residente de uma casa: Propriedade real coisa nenhuma. Estão nos colocando na rua.  Dan Stulbach: Simplesmente botavam as pessoas para fora de casa? Lilia Schwarcz: São mais de dez mil casas com a marca PR, que a população, com o seu bom humor, interpretou como propriedade roubada ou ponha-se na rua. Era propriedade real. Dan Stulbach: Mas também o brasileiro não perde o humor nunca, não é. Lilia Schwarcz: Quando a Família Real finalmente chegar, a decepção vai ser geral.  Senhora: do povo Eu nunca achei que eu fosse ver a Família Real tão de perto. Eles são estranhos, não é? E sujos. O príncipe é meio gordinho e ela é feia. Agora, a Rainha não vou nem falar.  Senhora do povo: Por que será que eles rasparam os cabelos? Será que é moda lá na Europa? Senhora do povo: Se for, eu espero que não chegue aqui. Dan Stulbach: Se a primeira impressão é a que fica, hein. Lilia Schwarcz: Carlota, por exemplo, mal pisou em terras brasileiras já queria partir. Ela reclamava de tudo. Dan Stulbach: Imagino. Para ela devia ser um choque, mas também tem do reclamar, não é. Está tudo sujo. É muito diferente.  Lilia Schwarcz: O que a Família Real estranhou mesmo era a quantidade de negros e de escravizados pelas ruas. Ah, isso estranhou. Assim como a Família Real,  os negros escravizados também levavam quase dois meses para cruzar o oceano. Só que vinham espremidos em caravelas com até quatrocentos e cinquenta cativos, acorrentados para evitar rebeliões. De cada cem, sessenta e cinco eram homens, trinta e cinco mulheres e apenas três crianças. Comiam só uma vez no dia, azeite, milho cozido e um pouco de água potável. E sofriam com disenteria, varíola, sarampo, febre amarela. De cada cem, oito morriam na viagem, mas nada que impedisse nossa escravidão de tomar proporções terríveis. No Brasil de D. João, os cativos eram um milhão e novecentos e três mil, metade da população de três milhões e oitocentos e dezessete mil habitantes. Outros quinhentos e vinte e seis mil eram negros nascidos livres ou libertos. E sobravam um milhão e quarenta e três mil brancos e apenas duzentos e cinquenta e nove mil indígenas aldeados.  Dan Stulbach: O Brasil na época do descobrimento tinha três milhões de índios. Onde é que eles estão agora, em 1808?  Lilia Schwarcz: Bom, a essa altura grande parte já está dizimada, em parte por causa das epidemias que vieram com os brancos, em parte por causa dos aldeamentos das missões jesuíticas. Nessa época, a América teria perdido 95% da sua população. Dan Stulbach: Um genocídio. Lilia Schwarcz: É, de certa maneira, as coisas são e não são como a primeira carta que Pero Vaz de Caminha escreveu sobre o Brasil nos idos de 1500. Se na carta de Pero Vaz de Caminha o escrivão fala da simplicidade dos índios e sua comunhão com a natureza, o viajante português Gabriel Soares de Souza trouxe  uma imagem ligeiramente diferente. Tratado Descritivo do Brasil, Gabriel Soares de Souza: A língua desse gentio é o Tupi-Guarani, que carece de três letras. Não se acha nela f, nem l, nem r. Coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e dessa maneira vive-se sem justiça e desordenadamente.  Dan Stulbach: Mas em 1808 ainda tinha resistência dos índios? Lilia Schwarcz: Nesse momento a resistência foi tal que D. João teve que decretar guerra contra os Botocudos. Dan Stulbach: Botocudos? Lilia Schwarcz: Botocudos. Era uma nação que os brancos é que deram esse nome, porque eles usavam botoques para alargar os lábios e as orelhas também.  Dan Stulbach: Botox? Lilia Schwarcz: Não era Botox, eram botoques. Dan Stulbach: Criaram o Botox? Esses índios são demais. E aí? Lilia Schwarcz: E eram considerados pelos brancos índios muito bravos, porque resistiam. Dan Stulbach: E por que eles declararam guerra aos índios? Lilia Schwarcz: Porque eles ficavam apenas e tão somente na região do Rio Doce. Já ouviu falar? Dan Stulbach: Claro. Onde houve um dos maiores acidentes ecológicos que a gente teve na história deste país. Lilia Schwarcz: Exatamente. Então, tinham muitos interesses econômicos em questão nesse momento. Dan Stulbach: Bom, mas imagino que para uma colônia do tamanho do Brasil, os índios não fossem o único problema. Lilia Schwarcz: Não. Com certeza, não, Dan. No Sul, o problema de D. João estava na Banda Oriental, onde hoje fica o Uruguai. A região estratégica era disputada por portugueses, espanhóis e ingleses. E depois de 1810 também pelos argentinos, agora independentes da Espanha. Em 1811, tropas rebeldes de Buenos Aires cercam Montevidéu, que pede ajuda a D. João. Uma tropa de quatro mil soldados marcha para a Banda Oriental, mas um acordo entre os Argentinos e os Uruguaios, pelas costas de D. João, acaba esfriando a briga de vizinhos. Por pouco tempo.  Dan Stulbach: Então, D. João mandou quatro mil homens para a Banda Oriental à toa? Lilia Schwarcz: À toa não foi. Na verdade, D. João achava que ele tinha direitos na região, até o Rio da Prata.  Dan Stulbach: Ah, então essa história não vai acabar agora? Lilia Schwarcz: Não, de jeito nenhum. Tanto que em 1825 vai estourar o conflito da Cisplatina por conta disso.  Dan Stulbach: Lilia, o Paço. Lilia Schwarcz: Este lugar aqui foi a primeira morada de D. João, quando ele chegou aqui no Rio de Janeiro. Na verdade, isso aqui era ainda mais agitado do que nos dias de hoje e era sobretudo tomado por africanos.  Dan Stulbach: Aqui é que era chamado A Pequena África? Lilia Schwarcz: Exatamente. Dan Stulbach: Mas a movimentação também era por causa do porto. Lilia Schwarcz: Isso, porque nesse momento começavam a vir navios de todos os lugares do mundo e o Rio de Janeiro não estava preparado para isso.  Dan Stulbach: Claro, era o novo Tratado de Livre Comércio.  Lilia Schwarcz: Exatamente. De todos os lugares, de repente, de Londres, da África, do Oriente, até da Oceania começavam a chegar navios, diretamente e sem passar por Lisboa. Dan Stulbach: E esse é o Tratado? Lilia Schwarcz: Então, quer dar uma olhada? Dan Stulbach: É claro que eu quero. Com o Tratado de Livre Comércio, as taxas ficaram assim: 24% para produtos de nações estrangeiras, 16% para produtos portugueses e, bela promoção, 15% para produtos ingleses, que logo dominaram o mercado. Era o preço da ajudinha a Portugal durante a fuga de 1808. Mas o fantástico livre comércio entre países desiguais, bem sabe o brasileiro, tem seus poréns. Os comerciantes que chegavam também partiam. E partiam, azar do pobre brasileiro, com navios lotados de banana, açúcar, fumo e café. Dan Stulbach: E custavam caro essas novidades? Lilia Schwarcz: Custava muito caro, porque junto com a Corte veio toda uma estrutura muito custosa. Dan Stulbach: E os brasileiros pagavam por isso. Lilia Schwarcz: Os brasileiros pagaram muito. O custo de vida aumentou, os impostos ficaram altíssimos e o preço dos aluguéis com a chegada dos portugueses, enfim, foi para o céu. Dan Stulbach: Dizem que brasileiro adora fila. Essa é para quê?  Lilia Schwarcz: Então, é a cerimônia do beija-mão. D. João recebe diariamente os seus súditos aqui na sala do trono. Pároco: A capela foi muito danificada com as últimas chuvas. D. João: Eu mandarei o meu construtor lá logo mais. Dan Stulbach: Não tem fila vip, não tem preferencial. Isso é bom, não é. Todo mundo junto. Lilia Schwarcz: Tudo assim, junto e misturado mesmo.  Dan Stulbach: Ah, e durante o beijinho tem um cochicho, uma negociata. Lilia Schwarcz: Esse ritual é um ritual que tenta aproximar o rei dos seus súditos. Ele assume essa figura paternal, até protetora e nessa hora, nessa fila aqui ele ouve bons votos, recebe queixas, pedidos, de tudo um pouquinho.  D. João: Elias. Elias António Lopes: É uma honra ter presença tão ilustre na colônia. Carlota Joaquina: Ai, quanta adulação. Dan Stulbach: Quem é esse cara que está bajulando D. João? Lilia Schwarcz: Então, esse aí é o Elias António Lopes.  Elias António Lopes: Tomei a liberdade de lhe oferecer uma casa, para que possa descansar e viver mais confortavelmente.  D. João: Podemos fazer uma visitinha e depois discutiremos valores. Elias António Lopes: Imagina, assim Vossa Alteza até me ofende. A casa obviamente é um presente da minha parte, não quero nada em troca.  D. João: Veja você. Carlota Joaquina: Pois sim. D. João: Bem, muito, muito, muito obrigado. Lilia Schwarcz: Vamos lá dar uma olhada, que eu vou te mostrar o presentinho que ele deu para o Príncipe Regente, só para agradá-lo. D. João: Ah, Padre Quevedo, como vai? Elias António Lopes era um grande comerciante de escravos e um lobista dos bons. Em 1798 comprou a Quinta da Boa Vista, que depois daria de presente a D. João. Em troca, levou uma pensão vitalícia, virou corretor da Casa de Junta de Comércio e foi agraciado com um título de cavaleiro. Era o preço pelo seu interesse no bem-estar de Vossa Majestade, que assim também aproveitava para formar sua nova elite. D. João reformou o edifício aos poucos. Colocou um torreão à direita, um portão, depois outro torreão à esquerda. E aí, ao longo do século XIX a Quinta foi ganhando novos acessos, jardins e uma nova fachada na moda neoclássica, a mesma de hoje. Dan Stulbach: Então a Família Real toda muda para cá? Lilia Schwarcz: D. João quer distância, Carlota Joaquina fica morando no Paço, a uns cinco quilômetros e D. João mora aqui, na Quinta da Boa Vista. Fim. D. João quer sossego, Dan. Dan Stulbach: Agora eu vi vantagem. Lilia Schwarcz: É. Além da reforma da Quinta, o governo de D. João vai fazer uma série de obras pela cidade. Quer dar uma olhada nessas obras? Dan Stulbach: Agora? Lilia Schwarcz: É. Vamos lá. Fim  [/accordion]

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