Minha história com o CACD

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    04/07/2017 . 13 min de leitura

Você estudou em boas escolas, você tirava boas notas, você era visto como inteligente e você se convenceu de que nasceu para ser diplomata e que passar era só uma questão de tempo. Mas o tempo passou e você acumula reprovações, frustrações, apertos financeiros e de repente, com um soco na boca do estômago, descobre que talvez você nunca vai passar. Essa história soa familiar para você?

Ninguém bate tão forte quanto a vida.

É a essa conclusão que nosso convidado de hoje chegou após fazer um balanço de sua trajetória como candidato ao concurso mais difícil do Brasil, o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). É uma história comovente e corajosamente escrita sobre como pessoas comuns reagem quando seus sonhos se tornam pesadelos… Desistir do concurso é uma opção? Desistir é, antes de qualquer coisa, um tabu sobre o qual pouquíssimas pessoas tem coragem de falar abertamente. Você está prestes a ler o que é talvez um dos relatos mais honestos e corajosos que já publicamos no Blog.  Essa leitura vale com certeza 5 minutos do seu tempo. Confira a história abaixo:

Se você se interessar por outras histórias de:

Diplomatas já aprovados:

Candidatos ao CACD

Agora, ao texto!


The hardest prison to escape from is the mind

*por Stefanos Drakoulakis

Meu nome é Stefanos Georgios Corsino Drakoulakis, tenho 26 anos, formado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, graduando em Direito pela Universidade de São Paulo. Hoje, pude ter a honra de relatar um pouco da minha história. Se você está descobrindo o que faz um diplomata, se quer ser um diplomata, ou mesmo se está há muito tempo nessa jornada, talvez esse texto lhe possa servir.

Aos adolescentes que cruzarem com essas linhas em suas pesquisas de carreira: esse texto, com a devida sugestão do editor, foi especialmente pensado para vocês. Saibam que uma aventura está bem à frente! A jornada não é sempre clara ou fácil, mas, sem dúvida nenhuma, bastante recompensadora.

O começo de tudo…

Minha escolha por Relações Internacionais foi feita aos 17 anos. Morava em Petrópolis, Rio de Janeiro. Estudava no Colégio Instituto Social São José. Típico adolescente, munido de uma consciência sonhadora, fui presenteado, por minha mãe, com o livro, “O Homem que queria Salvar o Mundo”, biografia do saudoso Sérgio Vieira de Mello.

Ao som de Where the Streets Have no Name, do U2, devorei cada página daquele livro, nada mais querendo do que, justamente, aquele sabor em minha vida. A passagem do ensino médio para a universidade não fora feita de facilidade: de última hora e ainda a contragosto, optei por realizar o temido vestibular da UnB, foi o primeiro de muitos encontros com o CESPE.

Sem nenhuma surpresa, fui reprovado com louvores! A surpresa veio do fato de que, no mesmo fim de ano, 2008, recebi milagrosa aprovação no Vestibular da Universidade Federal Fluminense.  Seis meses depois, depois de incertezas, de materiais de cursinhos, de uma universidade abandonada e da teimosia de quem havia optado pela UnB, soltei um dos gritos mais gostosos que já pude dar: enfim, passei no vestibular sonhado.

Na UnB meus sonhos tomaram forma, O Dialogo dos Mélios, trecho da obra de Tucídedes, primeiro texto escolhido pelo professor Antônio Jorge Ramalho da Rocha, os primeiros e superficiais contatos com as teorias de Kenneth Waltz, Kissinger e apresentado a uma realidade fantástica, na qual, política internacional cabia nas cabeças de jovens, pretensos analistas das Relações Internacionais.

O futuro analista, entretanto, já começou, desde o 4º semestre da graduação, a pensar no futuro. Senhores, a partir desse momento, minha jornada se torna uma tentativa de “contenção de danos” e de “como se obter o resultado satisfatório com o mínimo de esforço”.

À priori, isso seria o inteligente a ser feito, certo? Não. A verdade é que, em absolutamente qualquer área, qualquer profissão, qualquer ramo, ir além do dever é o diferencial. E, em minha pequena experiência, só se vai além do dever por um sonho.

Os CACDs 2012 e 2013: as primeiras tentativas

O jovem sonhador que chegara a Brasília esqueceu-se do sonho, não lembrava o que queria e, não tinha paixão, havia se esvaído. Senhores, FALHAS fazem parte de qualquer história de sucesso. Vitórias sem derrotas não têm sabor e, geralmente, não acontecem.

Imaginem a esse jovem, agora com alma de velho, deparar-se com 19 pontos líquidos em seu primeiro CACD. COMO ASSIM? Eu tiro excelentes notas, cumpro com minhas obrigações na faculdade, o que pode estar errado? Teoricamente, estou na melhor universidade do país, certo?

Lembro-me de ter tido uma imensa vergonha quando as pessoas começaram a falar das notas. Alguns dos colegas, hoje diplomatas, estavam em seus trinta e poucos pontos líquidos. Pá de cal em cima do morto; meus níveis de ansiedade explodiram.

Hoje, olho rindo! Com um ano na conta para graduação, não tive dúvidas, comportei todas matérias possíveis e imagináveis em conjunto com a graduação.

Procurei as referências dos melhores professores e bitolei completamente, achando que a receita matemática, esforço elevado a esforço, daria resultado. Esforço sem calma, consciência e, principalmente, leveza não produz nenhum fruto. O esforço empreendido à época não era força, era desespero.

Horas líquidas de estudo também não eram problema. Várias, várias e várias horas na frente de livros, procurando a maneira pela qual, sem erros, eu garantiria a minha aprovação. Aliás, o CACD, não sei se propositalmente ou não, já nos testa nesse quesito. Em um concurso de qualquer outra área, o tópico lei nº 8.666, por exemplo, se esvai com uma leitura da lei.

No CACD, os temas não se esvaem, Revolução Francesa, por exemplo, pode valer anos de estudos. Para mim, era aterrador a sensação de que, nesse momento, a receita de colégio, saiba o que está no livro, era impossível de ser aplicada.

Olhando por outra perspectiva, talvez seja esse mesmo intento do examinador: em um mundo complexo, com uma disponibilidade de informação gigantesca, o agente diplomático deve ser capaz de selecionar, priorizar e sintetizar uma grande quantidade de informação.

Ora, se os seus olhos estiverem no resultado, se você olhar para o CACD esperando resultados rápidos e, principalmente, se estiver sob pressão, as incertezas inerentes ao processo vão te paralisar. E, certamente, me paralisaram.

Com 6 meses para a próxima prova, atrasada pela votação tardia da LOA daquele ano,  a preparação formal para o concurso continuava, mas as perguntas internas se tornavam mais fortes. Que raios de Relações Internacionais que me tornaram um grande mar de dois dedos, eu vociferava.

No que havia de trabalhar, qual seria o plano B? Perguntas que, em meio a resumos, rascunhos de redações (todas amassadas, pasmem, já que eu descobri com o CACD que o português me era uma língua estrangeira, principalmente nos quesitos de pontuação), azulejos de banheiros com centenas de tratados e suas datas, devagar iam minando toda e qualquer tentativa de conhecimento.

Nunca irei me esquecer de um episódio: no curso de inglês, após um simulado da terceira fase, um grande, belo e redondo zero.

Sei que pode parecer algo pequeno, mas eu não era acostumado, não gostava e era mimado demais para enfrentar o que aquele zero significava.

O zero não foi acompanhado de uma vontade de melhorar, mas de uma tristeza que lembrava mais um fatalismo, como se eu nunca pudesse chegar ao nível do necessário, como se as pessoas que sentavam ao meu lado tivessem algo muito a mais do que eu.

Todas desculpas esfarrapadas para justificar meu estado mental eram bem vindas: muito difícil, impossível, fiz uma escolha equivocada, trabalho, trabalho e mais trabalho sem qualquer resultado.

O CACD de 2013, quando realizado, a alguns pouquíssimos meses de minha formatura, trouxe somente uma tola esperança: ganhei a sobrevida da zona cinzenta, em que parentes perguntavam se dava para passar ou não e a resposta era “é, vai depender das anulações”, naquela matemática de pontos possíveis e impossíveis. Eu havia ficado com uma pontuação que poderia, ou não, me qualificar para a próxima fase.

Engraçado é que, em nenhum momento, a minha saída de 19 pontos líquidos (minha nota no primeiro CACD) para seus 45,46 ou 47, foi algo valorizado por mim.

O que importava era passar ou não. O que importava era fugir de meus medos. De olho no retrovisor, o sentimento é de gratidão, gratidão por não ter passado pela zona cinzenta. No furor do momento, a resposta não foi outra: prestar outros concursos e não passar pelo desemprego.

Aí também descobri que a trajetória não seria tão simples, colacionando mais reprovações. Na minha formatura, quem olhasse para os meus olhos, não viria outro sentimento senão medo.

O sonho não estava ali, uma enxurrada de pensamentos, de comparação com outros, de sentimento de falha. Falha… Derrota… Reprovação… Foram contínuos naquele ano.

A ojeriza a tudo que se relacionava ao concurso foi tanta, que, mesmo com uma boa vontade imensa de minha família, me levando a Haia, Palais des Nations, visitando Nuremberg, os campos de Auschwitz-Birkenau, nada era capaz de me tirar a menor possibilidade de sonhar novamente.

O CACD se tornou um tema proibido em minha mente. Ver nomes conhecidos nas listas de aprovações, apenas uma época a se evitar as mídias sociais.

E fugir teve seu imenso custo, perdi tudo aquilo que me fazia eu mesmo. Em alguns processos de trainees, quando respondia exatamente aquilo que sabia que meus interlocutores queriam ouvir, o engraçado era olhar para mim mesmo e não reconhecer quem estava à frente do espelho.

Os anos que se seguiram não trouxeram alento, ganhei peso, perdi aquilo que considerava tão insubstituível.

O CACD significava uma vaga lembrança de dor, de fuga, que preferia não ver mais. Imaginava que era possível fugir. Não é. A cada dia que sua alma estiver dedicada a algo que não seja parte de você, irás sentir um imenso vazio, um vazio que se comunica com a própria vida, fazendo de você uma casca.

As reprovações de 2014, 2015 e 2016

São Paulo: em nova cidade, novo ambiente, novas pessoas, nova história? Absolutamente, NÃO. O mesmo eu ali estava e com ele os mesmos medos.
A todo o momento que cria que havia batido no fundo do poço, descobria que o poço poderia se aprofundar mais. De certeza de sucesso a falha, de debatedor de questões internacionais a estagiário distribuidor de processos no fórum trabalhista de São Paulo, de sonhador a “realista”.

Essa foi minha transformação e com ela, vieram a vida todos os meus medos. Todos se criaram, se realizaram, ao ponto de eu não me reconhecer. O Eu de 2007, 2008? Fugaz imagem perdida em meio a selva de pedra, atordoado estava eu quando pensei que a vida poderia ser absolutamente mais do que era.

Nesses anos, brinquei de fingimentos, fui brindado com circunstâncias inimagináveis em todas as áreas e até respirar se tornou uma atividade que me despendia muita energia.

Consigo me lembrar de finais de semana em que a única atividade que gostaria ou queria fazer era olhar para o teto.

Fui aprovado para o Tribunal de Justiça de São Paulo, o local em que atualmente exerço minhas atividades, mas a nomeação demoraria: estávamos em crise! Nessa confluência de fatos, que mais me parecia um plot desenhado contra minha pessoa, só contra minha pessoa. Apesar de não haver reclamações explícitas contra a realidade, uma cordialidade aparente escondia um coração amargurado, perdido e sem nenhuma firmeza. Deixei de acompanhar tudo que se referia ao internacional.

Engordei bastante, me perdi, comecei a trabalhar com Merges and Aquisitions, restruturação de empresas . Ora, conseguem imaginar maior ironia? O idealista que fora a Brasília, tornou-se representante do capital internacional. E não, senhores, não há problema nenhum nessas escolhas per se, o problema estava no descolamento entre essas e QUEM EU SOU.

2017: um recomeço…

Encontrei pessoas maravilhosas e que ferramenta é o Youtube! 40 kg mais magro, praticante de bodybuilding e mais livre, leve, solto, os livros chamaram das prateleiras.

Em fevereiro, no carnaval, fui a Brasília, sentei no gramado em frente ao ministério, fui ao Instituto de Relações Internacionais da universidade, em que um dos professores muito carinhosamente me chamou para almoçar, me deu um norte.

O coração começava a pulsar novamente. Na jornada, familiares, atividades improváveis e a biografia, dessa vez, de Mikhail Gorbachev, me trouxeram novamente o sabor. A marca do idealismo, daquele que se indigna em ver o mundo tal qual o é, começava a pulsar.

As leituras, antes feitas por obrigação, os textos de Gilberto Freyre, as regras de concordância de sujeito composto, os tratados de limites, agora, tudo se tornou tão divertido, inusitado e apaixonante ao se ler.

Perguntas começam a brotar de cada linha, o processo em si já se torna a recompensa: tornar-se quem o CACD pede de nós é a honra em si.

Ao mesmo tempo, por ter a possibilidade de atender a população no cargo que orgulhosamente ocupo a esse momento, posso ver a quem me proponho, um dia, poder representar. Senhores, o processo e quem nos tornamos durante esse é o que importa ao final.

O desafio de repensar a brasilidade e sua inserção em um mundo cada vez mais complexo não pode ser feito por uma “força profunda” que não seja o idealismo realista. Realista em suas responsabilidades, idealista em seus objetivos. Realista nos seus meios, idealista nos sonhos.

Não os ofereço outro conselho que não seja esse, meus companheiros de jornada, aproveitem cada linha de texto que ficharem, lerem, se debaterem (e chorarem em cima, faz parte)!

Hoje, sei que é um privilégio poder se preparar e prestar essa prova, que pede nada menos que sejamos apaixonados pela pátria e ávidos curiosos do mundo que nos rodeia.

Se precisarem de um tempo longe, sejam gentis consigo mesmos, aquilo que é verdade não vai desaparecer. Se você realmente quer essa carreira, se ela se comunica com seu âmago, você não vai conseguir correr muito dela. Paciência e esforço. Não sei onde a jornada irá me levar, não sei em quanto tempo irei passar, não sei o que pode acontecer amanhã, já aprendi que, como disse Rocky Balboa, ninguém bate tão forte quanto a vida.

Isso não me assusta mais, isso faz meus olhos brilharem. A jornada, o processo, é o que nos faz imbatíveis. Isso torna nossa história memorável. Fica por último uma frase que provei em todos os sentidos: what you fear and look back, becomes reality, what you fear and face will disappear.

Stefanos Drakoulakis é nascido em Belo Horizonte, bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, graduando em Direito pela Universidade de São Paulo. Reside em São Paulo, mas tem morada no mundo.

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Depoimento de um candidato experiente no CACD | Clipping CACD
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"Ninguém bate tão forte quanto a vida": essa é a conclusão a que ele chegou após tentar várias vezes o concurso mais difícil do Brasil, o CACD. Confira!
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